UM GANDULA DAS ARÁBIAS.

Crônica escrita por mim após o jogo Atlético X Coritiba, em 2009, e publicada no Terreirão do Galo, na Globo.com.

Quando fiz 15 anos, meu pai inscreveu-me no quadro de gandulas do Mineirão para aumentar a renda lá de casa. Alegre com a perspectiva de ver os jogadores do Galo de pertinho, eu recebi as instruções do pessoal da Ademg:

O gandula não pode influir no desempenho da partida. Não pode torcer de jeito nenhum. Tem de ficar quietinho em seu canto, que é definido antecipadamente pelo coordenador. Não pode atrasar a reposição de bola e tem de ficar calado, porque em boca fechada não entra mosquito.

Semanas depois, fui chamado para trabalhar no jogo do Galo contra o Coritiba e meu pai entregou-me ao coordenador. Troquei de roupa e me enfiei no uniforme mais bonito que eu já tinha visto depois da camisa preta e branca do Atlético.

Chegou a hora. Eu tremia que nem vara verde, meus joelhos pareciam uma geléia, mas firmei o corpo e junto com os outros gandulas, entrei correndo em campo. A massa estava bem à minha frente e eu fui incapaz de deixar de admirá-la. Fiquei plantado no meio de campo, só olhando e babando. Não tinha tanta gente como em outros jogos, mas o pouco que tinha fazia um barulho danado.

Quando o time pisou o gramado, o canto de Galooo ecoou tão forte que até no Nepal devem ter escutado.Tardelli passou bem pertinho de mim. Puxa vida, eu estava feliz demais! Jogadores batendo bola e eu ali me segurando pra não entrar na brincadeira. O coordenador me olhou furioso e com um aceno de cabeça obrigou-me a ir para o meu lugar. Eu fui, mas fui muito puto da vida.

O jogo começou e no primeiro ataque o Coritiba quase marcou. Quase tive um troço. Tanto que logo depois, ainda não refeito do susto, vi o Tardelli pegar uma bola fora do campo que era minha obrigação ter pegado.

Mas aí o Galo foi lá e meteu dois gols aos 14 e aos 15 minutos. Não me contive e soltei um Gaalooo de todo o tamanho. A encarada do quarto árbitro me obrigou a fingir de morto. Um morto totalmente imparcial, diga-se de passagem. Assoviei uma musiquinha para melhorar o disfarce.

Uma goleada se desenhava? Ledo engano, pois aos 20 minutos, veio o gol do Coritiba. Meu Deus do céu, será possível que a gente não tem nem o direito de ganhar um jogo em paz, sem ser incomodado?

Comecei a atrasar a reposição de bola para o Coritiba. Mas não exagerei, pois senti que o quarto árbitro não tirava olho de mim, o desgraçado. Mas isso não me impediu de xingar o Marcelinho Paraíba de “loira burra”, quando ele correu e puxou a bola da minha mão.

O Atlético concedia espaços e o Coritiba aproveitava. Todavia, o tempo foi passando e o primeiro tempo acabou. Ufa!

Na segunda etapa, o Galo tomou conta do jogo. O Serginho jogava o fino da bola. Num momento em que devolvia a bola pra ele, aproveitei pra dizer, assim meio entre dentes: _ Cai pra direita, Serginho, o lateral-esquerdo deles é uma baba! Ele sorriu e disse: _ Volta pro seu lugar, garoto.

Nisso, o tal lateral já reclamava com o juiz: _ Olha o gandula aqui, professor! Imediatamente, eu já era novamente um morto imparcial, olhando para o céu, inocente de dar dó.

Foi um massacre sem gols. A bola não entrava de jeito nenhum. O Edson Bastos fazia milagres, até que num contra-ataque, o Leozinho avançou pela esquerda e detonou o Aranha. Silêncio no Mineirão. 2 a 2 no placar!

A partir daí, fui tomado de uma pressa danada. Bola que caia na minha área era devolvida na bucha. Teve uma hora que nem bem a bola saiu e eu já a entregava pro lateral-esquerdo curitibano. Ele deu um sorrisinho vingativo, como quem diz: _ Agora está com pressa, não é? Na minha mente, eu amaldiçoei até o último de seus descendentes!

Eis que Renan Oliveira marca o terceiro gol no finalzinho do jogo. Do mesmo jeito que a massa explodiu de alegria lá em cima, eu explodi cá embaixo. Saí gritando e pulando que nem cabrito e só não entrei em campo para abraçar o Renan porque aí também já seria demais. Eu fiquei feliz demais, minha Nossa Senhora!

Agora devo informar aos amigos que estou suspenso pelos próximos 30 dias. Acho que não gostaram do meu primeiro dia de trabalho. Disseram _ embora eu não concorde _ que eu infringi todas as regras e que sou o gandula mais indisciplinado que o Mineirão já viu.

Mas eu digo que antes de ser gandula, eu sou atleticano até na alma. Vou tentar me controlar só pra segurar o emprego… mas, não garanto nada!

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7 comentários em “UM GANDULA DAS ARÁBIAS.

  1. E qual Atleticano, não faria igual este Gandula.

    Acho que eu não serviria para ser, entrava no campo e marcava um gol.

    o que viesse depois, num tava nem ahí, pq a minha vontade já tinha saciado, ajudar o Galo.

  2. Muito legal o texto. Eu me lembro muito bem desse jogo e que quase infartei lá nas arquibancadas. Imagina se eu tivesse lá no lugar desse gandula? Não sei se faria um golaço como fez o Renan Oliveira, mas que eu faria o terceiro gol de qualquer jeito.. ah! Isso eu faria! rsrs

    Abração!

  3. Dava cartão vermelho p o 4o árbitro [ chato esse cara naum !!?] e ia p galera rsrs…

    Curiosidade: o piá com o cabelo de manga chupada aê,é o tal gândula? rs…

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