REVIVENDO O DIA EM QUE O GALO FOI CAMPEÃO BRASILEIRO!

Em homenagem aos 40 anos da conquista nacional, eu vou lhes contar uma história. Relatarei aqui as imensas dificuldades que vivi para acompanhar as notícias do Galo no Rio de Janeiro, onde enfrentaria o Botafogo de Jairzinho, Djalma Dias, Zequinha e companhia, naquele longínquo final de tarde de 19 de dezembro, domingo chuvoso e frio, 1971 anos depois do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Se a Internet existisse naquela época _ o que é apenas um sonho de escritor que costuma viajar pelos caminhos férteis da imaginação _ eu não experimentaria toda aquela agonia. Eu saberia on-line no exato instante em que o urro gutural de campeão explodisse nas ruas e nos corações da nossa nação. Eu saberia… mas na época eu não soube.

Feito este introdutório necessário, vamos à narrativa:

Garoto ainda, em fins de outubro de 71, fui para São Paulo trabalhar. Dias depois, consegui me colocar em uma empresa chamada Cotonifício Guilherme George, no décimo quinto andar de um edifício em plena Av. Paulista.

Em dezembro, em virtude da proximidade do Natal, o Cotonifício iniciou um período de plantões de atendimento aos clientes nos finais de semana. Ao saber disso, eu tremi nas bases e tentei todas as artimanhas para livrar minha cara do tal plantão, inclusive elevando preces aos santos que conhecia.

Mas não me dei bem. Deus não gosta de intermediários, foi o que deduzi. Aprendi que, de vez em quando, é bom falar com Chefe diretamente. Por isso, me ferrei bonito na estratégia adotada e fui escalado para trabalhar exatamente no domingo do jogo.

Para quem não se lembra ou não sabe dos detalhes daquela final, eu posso refrescar-lhes a memória: Para o triangular final, se classificaram Atlético (com 12 vitórias, 10 empates e 5 derrotas), Botafogo e São Paulo.

No primeiro jogo, no domingo anterior, 12 de dezembro, o Galo tinha ganhado do São Paulo por 1X0 no Mineirão, gol de Oldair. Esse jogo eu consegui assistir pela televisão. Em meio a 10 ou 12 são-paulinos indignados, eu era a única personificação da alegria ao final do jogo. Não, não era só alegria. Era loucura pura. Gritava Galo milhões de vezes, pulava, esmurrava o ar, me jogava na lama da rua, enfim, eu era um atleticano terminal. Estava na UTI de tão doente, de tão feliz. Fiz a festa sozinho na casa do adversário.

Confesso que hoje eu não sou um atleticano mais fervoroso do que era naquela época. Não é porque eu não queira. É PORQUE NÃO CONSIGO! Isso é simplesmente impossível para qualquer atleticano, não só para mim. Desde crianças nós somos tão apaixonados que não dá para aumentar o amor no decorrer da vida. Ainda estou na UTI, vivendo à custa de aparelhos.

Na quarta-feira, 15 de dezembro, o São Paulo jogou e ganhou do Botafogo de 4X1. Portanto, partíamos para o jogo no Rio precisando apenas de um empate. Se perdêssemos, o São Paulo seria o campeão. O Botafogo necessitava marcar 6 gols na gente para compensar o seu déficit e superar o saldo do São Paulo.

Então, no domingo, lá estava eu pregado com um telefone na orelha atendendo aos clientes do interior de São Paulo e com o meu próprio interior em pandarecos.

Domingo modorrento, irritantemente lerdo, mas meio que a fórceps, a hora do jogo chegou. Fingi a cara mais concentrada no trabalho que eu pude achar, mas na verdade o meu espírito estava correndo no gramado do Maracanã envergando uma camiseta preta e branca emoldurada por um escudo com letras sagradas: CAM.

Do alto do décimo quinto andar, sem rádio, sem computador, sem celular, sem lenço e sem documento, fiquei de orelha em pé pra ouvir a explosão de foguetes pela cidade. Gol do Botafogo significava foguetes tricolores. Mas estes não explodiram. Silêncio total, a menina dormiu. Comecei a desconfiar que talvez… quem sabe…será se dá?

Achei _ entre um atendimento e outro _ tempo para uma última negociação: _ Meu bom Deus, dê essa colher de chá pra gente (nessa hora de desespero, resolvi me dirigir diretamente ao Chefe)… Eu sei que Senhor também é Pai dos botafoguenses. Mas combinemos assim, o Senhor os deixa ganharem noutro ano e nós ganhamos agora, ok? Feito assim?

No fundo, eu sabia que era uma negociação capciosa, mas fazer o quê? Eu estava tenso demais para crer apenas nos jogadores!

No silêncio pesado dos arranha-céus cinzentos, meio que dormindo sob a garoa, eu só ouvia o pulsar do meu coração, que batia como a charanga do Galo.

O jogo já deve estar no segundo tempo. Deve estar terminando e nenhum foguete!

Aleluia! O expediente acabou. Desci, esbaforido, os quinze andares _ não consegui esperar o elevador _ e fui direto para o bar da esquina da Paulista com a Rua Brigadeiro Luiz Antônio. Eu sabia que ali tinha uma televisão e que talvez alguém pudesse me informar o resultado do jogo.

Eu só posso dizer que ao entrar no bar de poucas pessoas, ninguém precisou me informar nada. A tela da televisão preta e branca no alto da parede me disse tudo que eu precisava saber. Estava lá em letras de fogo com o hino imortal do Galo tocando ao fundo: ATLÉTICO MINEIRO, CAMPEÃO BRASILEIRO DE 1971. E no canto superior da tela: BOTAFOGO 0 X 1 ATLÉTICO-MG.

Enquanto via os jogadores se abraçarem no campo, eu sentei na primeira cadeira que encontrei _ pois as minhas pernas já não me sustentavam _ e chorei que nem um menino, tão menino que eu era. Convulsivamente.

Simplesmente não consegui sair pulando e vibrando como tinha feito no jogo contra o São Paulo. Quedei-me impávido colosso, presa fácil de uma emoção inimaginável, inalcançável, que anseio sentir de novo um dia. Eu desabei inteiro, tremendo como gelatina. Por entre lágrimas, ainda pude ver, no canto do campo, Dario e Humberto Ramos se abraçando. Telê Santana já concedia entrevistas, mas eu não consegui ouvi-lo, apesar de toda quietude do bar.

A dona do lugar, assustada com aquele moleque chorão, correu com um copo d’água para me socorrer. Com um forte sotaque nordestino, perguntou-me o que acontecera. A única coisa que pude balbuciar, a prestações: _ Nada não, moça. Está tudo bem. O meu Galo é campeão brasileiro! Ainda não consigo acreditar!

A nordestina disparou uma imensidão de risada _ tão quente quanto as águas de seus mares _ e abraçou carinhosamente o garoto atleticano, solitário campeão perdido em São Paulo.

E durante o ano que fiquei em São Paulo, ela nunca me cobrou o iogurte natural de todas as manhãs. Todo o resto ela cobrava, mas curiosamente o iogurte não. Talvez porque fosse o item mais caro _ e meu dinheiro só dava para os mais baratos ­_ ou talvez porque quisesse homenagear o nosso Galo todo santo dia!

(Esta história é absolutamente verdadeira em todos os seus detalhes)

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9 comentários sobre “REVIVENDO O DIA EM QUE O GALO FOI CAMPEÃO BRASILEIRO!

  1. Putz,parceiro.Você me fez chorar agora,da mesma forma que chorei ontem após o jogo da final do mundial de clubes,entre Santos e Barcelona.
    Eu estava lendo o texto e me via nessa história que o senhor narrou.
    Será que um dia terei o prazer de ver Nosso Galo Amado,ser campeão Nacional,novamente.
    Só o tempo dirá,não é mesmo…

  2. Querido Roberto,

    Não tenho palavras para descrever ao certo o quanto seu texto é maravilhoso!
    Estou emocionada! Suas palavras tocaram meu coração e me tornou ainda mais apaixonada pelo Galo!
    O Galo mais lindo e mais amado do mundo!

    Um beijo! E muito obrigada por compartilhar conosco esse momento tão especial!

  3. Oi Roberto!

    Emocionante seu texto!
    Lágrimas nos olhos e nó na garganta só de imaginar viver um momento como esse…
    Verei, ainda!!! E aí, é UTI na certa!!!

    Abraços!

  4. Prezados atleticanos,

    Em 71, eu tinha 7 ano e com meu rádio Semer, o douradão, sintonizado na rádio Inconfidência narrou o gol de Dario, o peito de aço, o apolo 9 e tantos outros nomes dado para este moço maravilhoso, que nos deu o título de PRIMEIRO CAMPEÃO BRASILEIRO.
    Para os tolos de plantão, Primeiro é para sempre! Não existe ex-primeiro, certo.
    Se duvidarem, perguntem para suas namoradas, uai!
    Desde então, vi os times que o CAM montava serem garfados no apito ou nas tramoias dos bastidores, para garantir as vitórias do Rio/São Paulo, né, Globo?
    Vi o Sêo Vicente, lá em Montes Claros, vizinho de minha casa, voltar de BH com uma flâmula atleticana e me presentear – guardada até eu vim para Salvador e perdê-la, mas sem nunca sair da memória, viu, Sêo Vicente?. Sêo Vicente cantava e tocava para mim o hino do Galo. Não sabia – toda vez que voltava da escola passava em sua venda, lá na esquina da Melo Viana, para ver as fotos, flâmulas e ouvir as novas que ele tinha prá contar. Do seu violão saia o “Nós Somos do Clube Atlético Mineiro”,o mais encantador hino de futebol deste mundo. Que venha todas as maldades contra nós, que nos fará mais atleticano ainda.
    Que venha a Globo/CBF com seus Ricardos Teixeira, Wriths, Arnaldos, Galvões e seus iguais que não conseguirão nos fazer desistir, moço!
    O atleticano assistirá de pé, todo o mau ruir e todo o mal perder, pois, diante de nós, toda maldade é volátil e isto ainda não será nossa maior vitória.
    Um título a mais não nos fará mais atleticano e a menos, somente nos fará mais fortes.
    Perante a HISTÓRIA, Somos, além do CAM, a resistência do diamante, que diante das agressões ganha formas e brilho tão intenso que ofusca a face do mal refletida n´agua.
    Somos sim, do Clube Atlético Mineiro, uai!

    Parabéns, meu Galo, pelo título de 71!

  5. Prezado Roberto,
    Apesar de não conhecer a cidade de São Paulo, apesar de não ter nascido nesta data(nasci em 76), me “teletransportei” ao local e à época lendo se MARAVILHOSO texto. Estou chorando até agora, não como vc descreveu, pois estou no local de trabalho, mas a chama alvinegra em meu coração que no dia 04/12/2011, havia se apagado, reacendeu.
    Espero sentir a mesma emoção sua e de tantos atleticanos que estavam naquele dia e ver o Galo campeão Brasileiro novamente.
    Você foi genial.
    Abraços

  6. Puxa, que emoção ao ler suas palavras na descrição da história, fui tomada de uma emoção indescritível. Parabéns, retratam os verdadeiros sentimentos dos atleticanos. Como sempre arrasou!!!
    Ana(anlusantos)

  7. já foram lá votar

    http://glo.bo/t9ympB

    então vão agora, só entrar e votar , a despesa eu já paguei, é de Gratis

    A Massa não vai deixar as marias ganhar mais esta, vão!!!

  8. Já li essa sua crônica antes Roberto e é sempre bom reler novamente. Salve o Galo O PRIMEIRO CAMPEÃO BRASILEIRO.

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