O ATLETICANO JÁ NÃO PODE SER BUDISTA

colunarobertolopes2Na minha adolescência, eu ouvia o Legião Urbana, na voz do Renato Russo, um poeta, dizer que “toda dor vem do desejo de não sentirmos dor”. Para quem não sabe, a música fazia referência ao Tao Te King, o “Livro do Caminho Perfeito” do Budismo.

Buda entendeu o ser humano na sua essência: se nos desapegarmos, se por nada esperarmos, não nos decepcionaremos, não nos frustraremos. Seremos felizes, enfim.

Se alguém me perguntasse, três, quatro ou cinco anos atrás, se eu esperava ver meu time pronto para disputar tudo quanto é título, eu diria que não. Diria, provavelmente, que gostaria muito que isso acontecesse, mas não esperaria por isso. É que, mesmo para nós, reles seres humanos não-divinos, não-transcendentes, longe de sermos Buda, a experiência conta e aprendemos a nos proteger das frustrações. Se Buda viesse pregar para um matuto no interior de Minas, certamente ouviria: Ah, intendi, sim, sinhô! Concordo dimais, sô! Cachorro murdido de cobra tem medo de linguiça!

Pois eu e muitos atleticanos aprendemos a não esperar. A torcer, mas desapegadamente, até olhando meio de rabo de olho, como se fosse certa a decepção no final. Desconfio que é também por isso que, se todo torcedor ama seu time, o atleticano vai além, ama incondicionalmente. Não espera nada em troca, embora queira que venha. Apóia o tempo todo (entenderam, cornetas?).

2012 e 2013 nos colocam diante de um paradoxo sentimental-futebolístico: como não esperar? Como desacreditar da possibilidade de título com esse time, com esse banco, com esse técnico? Com essa torcida?

Há alguns anos, eu não esperava que meu time tivesse R10. Torcia por, mas não esperava, ver nascer no Galo um craque como Bernard. Torcia, mas não acreditava que fosse ver chegar de volta Tardelli, e virem Victor, Junior Cesar, Pierre e outros. Não apostaria que meu time teria a melhor zaga do Brasil, com Giba e Rafael Marques na reserva.

Antes de começar a Libertadores, eu queria MUITO, mas me continha para não esperar que o Galo começasse atropelando todo mundo. Aí foram lá e fizeram isso tudo. Me sinto até meio traído na minha desconfiança defensiva.

Meu time só não foi campeão brasileiro ano passado porque o apito não deixou. Meu time tem R10, Bernard, Victor, Réver, Pierre, Tardelli, Jô, Léo Silva e companhia. Meu time é 100% na Libertadores com a maior goleada que uma equipe brasileira já aplicou em terras argentinas. Meu GALO levou quase 4000 Atleticanos, assim mesmo, com A maiúsculo, a Buenos Aires num jogo da fase de grupos.

Atleticano escaldado tem medo de água fria? Tem, uai, mas como é que faz?! Muitos não acreditamos, mas nos deram, então, só nos resta dizer: foi mal, Buda, vai dar para seguir seu livro, não. Bora ganhar tudo que vier pela frente, que nosso time é foda!

Ah, e anota aí, na contra-capa do seu livro, Buda: caiu no Horto, tá morto! Certo?

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7 comentários sobre “O ATLETICANO JÁ NÃO PODE SER BUDISTA

  1. Depois de um longo e tenebroso inverno parece que vou conseguir comentar novamente no L&N. Estive fora um tempão a trabalho, e depois que voltei só agora consigo escrever. Antes acessava por uma internet horrível que nunca abria a página de comentários (trem ficava rodando e não abria, sei lá). Muito bom matar a saudade.

    Acho muito legal, e concordo muito com essa visão do Roberto Lopes. Atleticano é assim mesmo, importa é a festa, a paixão. Quando vence melhor ainda. Mas ainda acho que antes do advento da internet, redes sociais, etc… a torcida era mais “amante incondicional”. Não sei se é pelo twitter que estou tendo uma visão errada, já que sou um exilado há 12 e intermináveis anos, mas tenho achado parte da torcida meio chata, sem paciência, corneta como se diz… Acredito que seja a minoria, pois quando consigo ir ao estádio, a energia ainda é a mesma. Sempre houve uns caras chatos no meio da torcida, mas a grande maioria continua doida.

    Participar da LA já é um grande passo. Vamos aprender a vencê-la, se não hoje, creio firmemente que num amanhã bem próximo. Quem viver verá… Enquanto isso a gente se diverte, pois o que a torcida fez na Argentina foi demais.

    Abraço a todos.

    Valeu Roberto[s]

  2. Sensacional o texto!O atleticano não precisa de títulos para torcer, mas ele os merece por sempre torcer.Simbora, Galo!Se for ganhar, que seja sem piedade;se for perder, que seja com muita luta.

  3. Boa tarde!
    Caro Roberto, você não pode ficar ausente desse seu importante trabalho voluntário dedicado ao glorioso e a massa.
    Volto a dizer que seu blog é um dos três melhores do blogs do Galo e muito acessado. Toda imprensa, cartolas, jogadores e desportistas de uma forma geral acessam diariamente seu blog.
    Um abraço!

  4. Caro Roberto, meus parabéns! Conseguiu, com maestria, traduzir em palavras o sentimento do atleticano no momento vivido. A vontade que tenho é de rasgar tal “Livro do Caminho Perfeito”. Todavia, calejado que sou, vou jogar ele no fundo do armário e me permitir sonhar um pouquinho! Abração, Caravita

  5. Se alguém me perguntasse, três, quatro ou cinco anos atrás, se eu esperava ver meu time pronto para disputar tudo quanto é título, eu diria que não. Diria, provavelmente, que gostaria muito que isso acontecesse, mas não esperaria por isso. É que, mesmo para nós, reles seres humanos não-divinos, não-transcendentes, longe de sermos Buda, a experiência conta e aprendemos a nos proteger das frustrações. Se Buda viesse pregar para um matuto no interior de Minas, certamente ouviria: Ah, intendi, sim, sinhô! Concordo dimais, sô! Cachorro murdido de cobra tem medo de linguiça!

  6. Se alguém me perguntasse, três, quatro ou cinco anos atrás, se eu esperava ver meu time pronto para disputar tudo quanto é título, eu diria que não. Diria, provavelmente, que gostaria muito que isso acontecesse, mas não esperaria por isso. É que, mesmo para nós, reles seres humanos não-divinos, não-transcendentes, longe de sermos Buda, a experiência conta e aprendemos a nos proteger das frustrações. Se Buda viesse pregar para um matuto no interior de Minas, certamente ouviria: Ah, intendi, sim, sinhô! Concordo dimais, sô! Cachorro murdido de cobra tem medo de linguiça!

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