Arquivo da categoria: Crônicas de Ana Cris Gontijo

SEMPRE POR UM TRIZ

colunadaanacris1Quando meu telefone apitou anunciando que a venda dos ingressos para a final da Libertadores seria na manhã seguinte, eu havia acabado de chegar a Belo Horizonte. Então no sábado, depois de um dia inteiro na fila gritando Gaaaaalo e conversando com aqueles tantos atleticanos, meus melhores amigos das últimas 7 horas, tive certeza de que eu não era a única a acreditar de verdade que sairíamos campeões. A boa expectativa era geral.

Cada um dos quatro dias seguintes pareceram ter sido feitos de quarenta anos. E, agora que tinha chegado o dia, eu não tinha certeza se estava pronta. Mas firmei o corpo, ergui os olhos e me convenci de que enfim tinha chegado a hora de ser campeã.

Na porta do Mineirão, durante toda a tarde e início de noite, milhares de pessoas cantavam o hino do Atlético, em ritmo de festa. Parecia que nós é que tínhamos a vantagem dos dois gols. Que torcida corajosa!

Encontrei um monte de gente conhecida, abracei, cantei, pulei, entrei, sentei. O primeiro tempo de jogo foi amarrado e, de tanto nervosismo, comecei a passar mal do estômago. Ainda não tinha pensado que fosse real a hipótese de não fazermos dois gols. Durante o dia, havia encontrado um olimpista que carregava uma taça de isopor e lhe disse, com muita convicção, que eu sabia que ganharíamos o jogo. A única dúvida era por qual diferença. E agora o gol não vinha. E agora me faltava ar.

anaeamigos

Foi do banheiro que tomei conhecimento do primeiro gol. Senti as paredes do Mineirão tremendo e um barulho ensurdecedor. Se não fosse terremoto, era gol. Era gol! Nenhum remédio no mundo seria capaz de melhorar meu estômago em cinco segundos como aquele chute do Jô. Lavei o rosto e senti as pernas falharem. Ajoelhei-me no chão do banheiro e, com as mãos abertas em cruz, sozinha, senti a falta de um abraço atleticano.

Quis abraçar minha irmã. Aquela que me levou ao primeiro jogo do Galo quando eu tinha dez anos. Ela, que dividiu comigo tantas alegrias, mas também tantas batalhas perdidas, estava agora em uma fazenda, sem telefone, sem televisão, sem internet. Uma família de atleticanos a convidou para assistir à final com eles. Porém, antes do jogo, seus três filhinhos caíram no sono e começou a chover muito. Não havia como sair.

Então ela se lembrou de que em algum armário de algum quarto daquele casarão havia uma televisãozinha preto e branca, com tela de seis polegadas. Era um aparelho muito antigo, mas, sendo do Paraguai, devia estar interessado em ver o jogo também. Televisão ligou, mas não sintonizou. Minha irmã prendeu um chumaço de bombril na antena e voilá! Começou o jogo. E, tudo o que vimos em cores, ela viu no preto e branco do nosso mundo atleticano.

anaeimagem

Estávamos separadas, mas sofríamos do mesmo jeito com aqueles quase gols o tempo todo. Sempre associei os quases do Galo àquele verso do Chico que diz que “para sempre é sempre por um triz”. E é assim que continua a ser.

Foi por um triz que empatamos o jogo de ida contra o Tijuana, nas quartas de final, com aquele gol do Luan. Foi por um triz que a perna esquerda do Victor defendeu o pênalti de Riascos no jogo de volta. Na semifinal, foi por um triz que o zagueiro do Newels’ Old Boys errou o corte e a bola foi parar nos pés do Guilherme. Alguns minutos antes, um tiro do Guilherme não tinha entrado, por um triz. E agora a bola passou bem pertinho da trave, só que do lado de dentro. Por um triz. Na final, o gol do Olímpia também não saiu por pouco: um escorregão improvável de Ferreyra, após driblar nosso goleiro. E aquela bola no finalzinho do segundo tempo, cabeceada por Leonardo Silva, entrou preguiçosa, quase querendo não entrar. Foi por muito pouco.

Dois a zero para nós. Nos trinta minutos de prorrogação, as traves estavam mais teimosas do que criancinha que não quer comer. Eram chutes sem fim, mas o gol fechou a boca. Não deixava entrar nada, talvez porque soubesse que era dia de voltarmos a 05 de março de 1978 e curarmos aquela ferida aberta no peito de todo atleticano, mesmo os que não eram nascidos. Decisão por pênaltis. A perda daquele título nacional foi por um triz.

Mas agora havia de ser diferente, curador. Naquele último pênalti cobrado pelo Olímpia, a bola que bateu no travessão transformou, por um triz, nossa história para sempre.

anaeirmaO Mineirão explodiu e só depois é que fui saber que minha irmã tinha estado sozinha, com aquela alegria toda que não cabia no peito, sem ter com quem dividir. Lembro-me de todas as vezes em que, juntas, nós quase, quase, quase ganhamos tudo, e agora ela estava longe da festa. Penso que, assim como eu, foi por pouco que ela não morreu. E, se existem atleticanos vivos no mundo, aos milhões, pergunte a cada um deles como é que ainda estão vivos. Todos dirão que o coração quase parou de bater para sempre. Foi por um triz.

Para seguir a colunista no twitter, clique aqui

Siga este blogueiro no twitter clicando aqui

Anúncios

CARTA AOS JOGADORES DO CAM

Senhores jogadores do Clube Atlético Mineiro,

Não pretendo aqui representar a torcida do Galo. Esta carta é minha, leva a minha assinatura. É a minha opinião. Traz o meu pedido.

Nos últimos anos, já escrevi cartas ao presidente do clube, à torcida e até a mim mesma, mas hoje meu assunto é com vocês. E é respeitosamente que escrevo.

Não deve ser novidade que a Massa atleticana está revoltada com o futebol que vem sendo apresentado, já que a torcida tem ficado calada durante os jogos e até vaiado o time.

Não sei se vocês entendem bem o que isso significa quando se trata da torcida do Clube Atlético Mineiro. Tradicionalmente, somos um povo que empurra seu time para a vitória. Mas acho que, para minha tristeza, não tem sido mais assim, não é?

Eu acho que sei o motivo: para esta nação chamada Galo, não basta ter bons jogadores; é preciso vê-los jogar como quem parte para o jogo mais importante de suas vidas.

E, querem saber? Daqui até o fim do ano, cada jogo será realmente o mais importante de suas vidas. Pensem bem: talvez vocês tenham ganhado títulos em outros clubes, talvez alguns de vocês já tenham conquistado tudo o que queriam, mas um rebaixamento à Série B manchará para sempre a honra de vocês.

O Clube Atlético Mineiro é grande e logo se reerguerá, contratará novos jogadores, poderá ganhar grandes títulos na próxima década. Mas, caso se confirme nosso descenso este ano, vocês serão para sempre lembrados como o time milionário que rebaixou o Atlético.

Acho que vocês ainda não entenderam o tamanho do clube que defendem. Vocês vestem hoje a mesma camisa do único time que fez curvar a toda poderosa Seleção Brasileira de 1970!

Lembrem-se agora de todos os seus sonhos de meninos e saibam que eles estão em jogo. Queriam ser grandes jogadores e agora amargam uma melancólica zona de rebaixamento no Campeonato Brasileiro?

Ainda dá tempo, acordem! Lutem com honra, garra e dediquem cada gota do seu suor a quem quer que queiram: família, amigos e até a vocês mesmos, que um dia sonharam vestir uma camisa de time grande. Não sei se vocês entendem isso, mas o Atlético sempre será grande.

Mas, nas próximas semanas, se o mundo inteiro tiver a impressão de que o Galo se apequenou, serão os rostos e os nomes de vocês que serão apontados como os responsáveis pelo fracasso. Não pensem que uma queda à série B será fácil para vocês. É melhor jogar além do limite agora do que tentar remendar os efeitos depois. Isso sem falar, claro, no prejuízo financeiro.

Não há mais tempo para nada além da mudança de atitude de vocês mesmos. O time que vai cair ou que vai ficar é este aí.

E a decisão de lutar e encontrar forças até onde vocês não sabiam que seria possível cabe somente a vocês. Eu só posso pedir que tentem. São dez jogos. Dez verdadeiras guerras. Eu só posso dizer que, se realmente tentarem, eu acredito de todo coração que conseguirão.

Espero muito que queiram. Lutem. Lutem muito. Entreguem-se de um jeito que ainda não fizeram. E verão um país inteiro, em preto e branco, torcendo loucamente a favor de vocês.

Até mesmo contra o vento!

Ana Cristina Gontijo

Para seguir a colunista no twitter, clique aqui

Siga este blogueiro no twitter clicando aqui

Escrito entre o preto e o branco (todo atleticano sabe)

TEXTO ESCRITO POR ANA CRISTINA GONTIJO, COLUNISTA DO L&N.

2010 despede-se da história do Clube Atlético Mineiro como um gigante malvado, fortão e metido a besta que tentou botar banca, fez de tudo para macular nosso livro, mas acabou fraco, raquítico.

Agora sai de fininho, falando baixo, pedindo desculpas. Este ano, filho de uma ronca e fuça, entregou-nos seus últimos dias feito um vilão em fim de novela, fingindo de bonzinho para ver se esquecemos o que ele nos fez.

Agradecemos o mimo, o alívio das últimas vitórias e a esperança das novas contratações, mas pronto, já deu. Não queremos mais nada com 2010, embora reconheçamos que nesses meses aprendemos muitas coisas; crescemos fortes.

O último ano da primeira década do terceiro milênio não passa de um coitado. Ele tombou, o alvinegro mineiro vive. O gato é o bicho que tem sete vidas, mas, verdade seja dita, é vivendo o dia-a-dia do meu Galo que assisto à beleza de renascer tantas vezes, sempre inteiro.

Hoje, dia 31 de dezembro, nós atleticanos arregaçamos as mangas, percebemo-nos fortes e espichamos os olhos para tentar enxergar o próximo ano pela fresta que se abre.

Vem aí a próxima década, aquela que nos devolverá a grandeza roubada por dirigentes maus caráteres, jogadores desinteressados e indignos de vestir nossa camisa.

A década que toca nossa campainha esconde muitos segredos. Olhamos para este punhado de anos a nos convidar para o baile: “coreografem-nos, inventem-nos, dancem-nos!” Convite aceito.

Nas arquibancadas, cantaremos o hino como se fosse um grito de guerra. Unidos, dançaremos a coreografia dos vencedores.

Juntos, filhos, pais, mães, amigos, irmãos, nossa voz se fará única, celebrando a mais pura alegria: a de levar nosso escudo junto ao peito, aquelas três letrinhas que valem mais do que dez mil tríplices coroas.

Que 2011 desvele cenários jubilosos, que nossos guerreiros tenham orgulho da camisa que veste sua nudez e os faz realmente grandes. E que nossa torcida reviva seus dias de glória, porque o Clube Atlético Mineiro é e sempre será grande.

Por fim, e principalmente, que jamais novamente precisemos pedir raça aos jogadores, porque eles saberão que esta é a marca da nossa história. Raça é uma palavra que se esconde em nossa camisa, nas fibras do tecido, ali entre as listras pretas e as brancas. Nós sabemos. Pergunte a qualquer atleticano: ele já nasceu sabendo!

Feliz nova década ao senhor das alterosas, soberano alvinegro, o Galo de nossas vidas.

PARA SEGUIR A ANA CRISTINA NO TWITTER, CLIQUE >> @anacrisgontijo

PARA SEGUIR ESTE BLOGUEIRO NO TWITTER, CLIQUE >>> robertoclfilho

NOVA CARTA AO PRESIDENTE ALEXANDRE KALIL.

colunadaanacris1Prezado senhor Alexandre Kalil,

Há quase um mês, enviei-lhe uma carta. Procurei escrever de forma respeitosa como achei que deveria, sincera como não saberia deixar de ser. Isso foi no final da décima quinta rodada do Campeonato Brasileiro de 2010.

Hoje volto a lhe escrever. Sete rodadas depois de ter escrito pela primeira vez, tenho agora a pele alvinegra ainda mais esfolada. Ouço bem mais chacotas por onde quer que ouse passar vestindo minha camisa. E, por mais que eu evite, por mais que eu queira manter a calma, começo a me perguntar se você, Alexandre Kalil, tem qualquer respeito por mim.

Ah, você nem sabe quem eu sou? Eu lhe digo: sou torcedora do Clube Atlético Mineiro. Meu clube não se chama Vanderlei Luxemburgo. Respeito a história dele, mas não é por ele que torço, não é em nome dele que chego em casa mais cedo, cansada, e vejo cada partida com o coração na goela. Não é por ele que eu ia ao Mineirão e agora vou a Sete Lagoas.

Veja você, o que me intriga mesmo é saber que 31,8% de aproveitamento em 22 rodadas não são vergonha suficiente para ameaçar o emprego de uma comissão técnica.

Em qualquer clube, 13 derrotas em 22 partidas seriam suficientes para derrubar pelo menos 2 técnicos.

Mas o que estamos assistindo (e tomara que seja mesmo uma ilusão de ótica bem sem-vergonha) é um técnico mandando e desmandando no clube, mesmo demonstrando não saber ao menos para onde seu nariz aponta. O Galo por quem torço e sofro parece um navio ao sabor das marés, enquanto seu capitão se diverte em um cassino improvisado no convés.

Eu me segurei ao máximo, eu tentei me convencer do contrário, mas agora não dá mais: Vanderlei Luxemburgo está perdidinho da Silva e continua dando tiros para todos os lados. Escala mal, substitui mal e ainda acha que está sendo perseguido pela torcida e pela imprensa. Ah, tenha dó!

Quando era pequena, escutei estes versinhos que jamais me saíram da mente: “Tropeiro só fala em burro, carreiro só fala em boi. Moça só fala em namoro, velho só fala o que foi”. Luxa ainda é bem jovem, mas então por que só sabe falar do que já fez, do que já foi? Não é de passado que se faz futuro. Não é com discursinho barato nem com desculpas esfarrapadas que se sanam problemas.

BURRO PENSANDO: COMO É QUE SAIO DESSA?

Sinceramente, senhor Alexandre Kalil, eu acho que você deve fidelidade ao Clube Atlético Mineiro. Se tiver que escolher entre o Galo e aqueles que fazem mal ao Galo, não titubeie. E não me refiro apenas ao técnico Vanderlei Luxemburgo.

O grande volume de lesões e o mau preparo físico de vários jogadores, mesmo depois de tanto tempo treinando, não é coisa normal. Descasque seu abacaxi, desate o nó que tiver que desatar, faça o que tiver que fazer, pague multas, despache para bem longe uma canoa cheinha só de nego imprestável, mas livre o Galo deste pesadelo.

Faça alguma coisa, antes que seu nome vá para o ralo, lá para as páginas vergonhosas de nossa história, antes que você tatue seu nome em nosso livro como o presidente que chegou prometendo grandes conquistas e nos levou para as profundas dos quintos.

Atenciosamente (e bem menos pacientemente),

Ana Cristina Gontijo

PARA SEGUIR A COLUNISTA NO TWITTER, CLIQUE >>> @anacrisgontijo

PARA SEGUIR ESTE BLOGUEIRO NO TWITTER, CLIQUE >>> robertoclfilho

CARTA AO PRESIDENTE KALIL.

CRÔNICA ESCRITA POR ANA CRISTINA GONTIJO ESPECIALMENTE PARA O L&N.

Prezado senhor presidente Alexandre Kalil,

É com muito respeito que escrevo esta carta. Não existe, nestes chãos de nosso Brasil, outro homem que eu gostaria de ver à frente de nossa nação alvinegra. É com segurança que sempre defendo seu nome, certa de que você tem sido incansável na busca por defender nossas cores, nosso escudo. Portanto, não me sinto órfã de presidente.

Acontece que estou com medo, logo eu, que não costumo deixar-me abater por coisa pouca. Acredito que todo trabalho sério será recompensado e sou sempre a primeira a pedir calma quando, ao meu lado, as pessoas agem como se tudo estivesse vindo abaixo. Fico irritada quando esses tais soltam xingamentos em golfadas, como se nosso mundo preto e branco estivesse sempre a ponto de se extinguir em algum abismo multicor.

Eu não. Eu sou serva da esperança. Chego a ser chamada de boba, ingênua, por sempre acreditar no impossível. Mas, presidente, cá entre nós, a verdade é que eu estou com medo. De ontem para hoje eu não dormi bem. Sonhei com futebol, reorganizei o time em campo, escalei a equipe que eu quis e fiz as substituições que eu gostaria de ter visto. Depois de um sono atribulado, acordei duas horas mais cedo do que deveria, cansada e triste. Por isso resolvi escrever.

Chegou o momento em que começo a duvidar de minha voz quando digo que o Galo não vai cair. Por favor, não me leve a mal. É que ainda guardo o gosto amargo do que nos aconteceu em 2005. A ferida, ainda lembro, foi difícil de fechar. A cicatriz que carrego é feiosa e, por favor, eu não quero outra. Ontem li que Corinthians e Vasco foram os últimos dois grandes clubes rebaixados, em 2007 e 2008 e que, ao final da décima quinta rodada, tinham 19 e 16 pontos, respectivamente. É por isso que estou com medo.

É claro que não vou abandonar a luta, não deixarei de vestir minha camisa e apoiar o time, sempre. Há muitos anos argumento que não ando atrás de títulos, e é verdade. Não troco meu escudo nem por cinco mil tríplices coroas. Se lhe escrevo, Alexandre Kalil, é exatamente porque não tenho para onde ir. É aqui que eu quero ficar. Já não poderia aprender a amar outro escudo, nem vestir outras cores. Minhas cordas vocais já não saberiam cantar outro hino. E um juramento eu faço: meus lábios jamais saberão o gosto de beijar outra bandeira.

Não estou aqui para lhe dar conselhos. Já faz um tempo que me demiti de ser dona da verdade e, de mais a mais, não sei o que se passa nos bastidores do clube. Não saberia opinar sobre uma possível demissão da comissão técnica, nem sobre mudança no esquema de treino. Tenho, sim, alguns questionamentos. Por exemplo, se um lateral direito é muito melhor que o outro, por que ele continua no banco de reservas? Se um esquema com três zagueiros não funciona, por que o treinador continua utilizando-o? Se um jogador não é goleiro, por que ele veste a camisa 1, se sempre aprendemos que todas as peças são importantes em um time? São perguntas que me acompanham ao longo da semana e seguem martelando após cada apresentação da equipe.

Quero terminar esta carta dizendo que lhe desejo sabedoria para conduzir este momento à frente de nosso Galo. Se você, como nosso comandante, também está confuso e talvez (apenas talvez) com medo, peça paz, coragem e sabedoria do Alto para realizar seu trabalho. Por favor, apenas prometa que não deixará de lutar e de colocar os interesses do clube acima de quaisquer interesses individuais. Nós precisamos de seu pulso firme. Precisamos de suas decisões e esperamos que sejam sensatas. Só você pode fazer com que a realidade do nosso Galo não se distancie cada vez mais das palavras que cantamos no hino.

Existe uma nação ao seu lado e não iremos a parte alguma. Mesmo que já não sejamos tantos, mesmo que já não sejamos tão fortes, mesmo feridos, nós, os que ficarmos, seremos um povo que não foge à luta!

Um abraço alvinegro,

Ana Cristina Mendes Gontijo

PARA SEGUIR A AUTORA DO TEXTO NO TWITTER, CLIQUE >>> @anacrisgontijo

PARA SEGUIR ESTE BLOGUEIRO NO TWITTER, CLIQUE >>> @robertoclfilho

QUEM MANDOU NASCER BRASILEIRA?

ESTA CRÔNICA FOI ESCRITA EXCLUSIVAMENTE PARA O LANCES&NUANCES POR ANA CRISTINA GONTIJO.

Era 07 de setembro de 2008. O Brasil enfrentaria o Chile pelas eliminatórias da Copa, no Estádio Nacional, em Santiago. Eu morava lá, mas nem cogitei ir ao jogo. E não foi só isso: meu não-entusiasmo pela seledunga me fez prometer aos amigos chilenos que eu torceria pelo Chile. Eu dividia o apartamento com dois chilenos. Uma hora antes da refrega, estava tudo preparado. Churrasqueira acesa na varanda, muito pisco e cerveja, quinze amigos santiaguinos empoleirados no carpete da sala, e eu esperando que o Andrés chegasse com a camisa da seleção chilena para que eu pudesse torcer por “La Roja” em grande estilo.

Era estranho ouvir os comentaristas da tevê naquele Espanhol desenfreado. De repente, começa a tocar o hino chileno, que eu não conhecia, que eu nunca soube cantar. Meus amigos levaram a mão ao peito enquanto um deles me dizia, interrompendo a solenidade do momento, que em algum jornal da Europa havia sido publicado que o hino do Chile era o segundo mais bonito do mundo, só perdendo em formosura para o hino nacional da França, “La Marseillaise”. Não pareceu dar muita importância quando eu lhe disse que, peraí, essa mesma história circula no Brasil também, só que a respeito do hino brasileiro.

Não houve tempo para discussão. Logo começou o nosso hino. Todos voltaram a conversar alto e eu pedi silêncio. Calaram-se. Coloquei-me de pé, mão junto ao peito. Cantei com os jogadores. Sim, metade deles errou a letra. Nem liguei. Senti meu coração dando pinotes, a voz engasgada, e uma vontade de chorar…

Em poucos segundos, tentei contar quantas pessoas que eu amava e que estariam vendo as mesmas imagens que eu. Sabia que meus pais e irmãos estavam cantando o hino comigo. Quase consegui escutar um coro gigantesco, cento e noventa milhões de vozes cantando conosco em honra a um país que amamos sem saber muito bem por quê.

Tentei frear meu entusiasmo. Argumentei para mim mesma que era romantismo barato isso de achar que era tudo muito lindo e maravilhoso. Técnico mequetrefe, seleção desengonçada, futebol feioso. Ilusão, ilusão, ilusão. Mas quem foi que disse que coração obedecia ao meu chá de bom senso?

Corri ao meu quarto e voltei. Não teve churrasco para mim: a carne, o pisco e a cerveja eram para os amantes de “La Roja”. E qual não foi a cara de decepção do Andrés quando, ao chegar com uma camisa do Chile na mão, deu de cara com uma Ana Cristina vestindo uma blusa amarela e uma jaqueta verde bandeira.

TRÊS A ZERO PARA O BRASIL. Ô FESTA!

PARA SEGUIR A AUTORA DESTE TEXTO NO TWITTER, CLIQUE>>> @anacrisgontijo

PARA SEGUIR ESTE BLOGUEIRO NO TWITTER, CLIQUE >>>@robertoclfilho

A TAÇA É SÓ UM DETALHE.

TEXTO INÉDITO DE ANA CRISTINA MENDES GONTIJO, ESCRITO ESPECIALMENTE  PARA O L&N.

– Ahrr, tá feliz porque ganhou Campeonato Mineiro? Vale nada. Vaga na Copa do Brasil é nada. – insultou, hoje pela manhã, o porteiro do prédio onde trabalho.

Pois é, seu moço, mas entenda o seguinte: hoje a festa é nossa, o abraço é nosso e é nossa a alegria. Toda nossa.

Semana passada minha irmã comentava como deve ser frustrante viver a vida em função de um único campeonato. Tudo na vida do time azulado, o terceiro de Minas Gerais, é esperar pela final da Taça Libertadores. É o único jogo que realmente mexe com eles, é só assim que eles lotam o estádio.

Não que isso seja pouco. Veja bem, não quero desdenhar de algo que é também um sonho para a massa alvinegra. O que quero dizer é que a vida não se resume a isso.

O Galo não joga o Mineiro pensando na vaga para a Copa do Brasil, para depois jogar a Copa do Brasil pensando somente na vaga para a Libertadores. Nós jogamos é jogo a jogo, nós vibramos é de dia em dia.

Se fosse de outra forma, seríamos como aquela mãe que cria a filha só para esperar o dia do casamento. Ou o aluno que passa a adolescência só esperando o dia do vestibular. E depois os anos de faculdade só para esperar a formatura. Viver assim é muito sem graça!!

O dia do casamento é importante, sim, mas não anula as alegrias da paquera e do namoro, nem a importância pedagógica dos erros e desencontros. A formatura traz grande alegria, isso é óbvio, mas não apaga a convivência e as festas da faculdade. Libertadores é um título importante (e só não ganhamos em 1981 porque fomos vergonhosamente garfados), mas não é em função dele que vivemos.

A torcida do Atlético Mineiro, glorioso alvinegro das alterosas, entendeu há muito tempo que todo jogo é importante. Comemoramos, sim, o quadragésimo título estadual, mas a taça é um detalhe.

O que marcará para sempre as nossas vidas é ter visto um ídolo como o Marques marcar o gol do título, e termos chorado com ele em uma comemoração que emocionou o país e estará para sempre tatuada em nossas retinas.

Nossa alegria maior, repito, não é a taça. A taça é só um símbolo, lembrança do que vivemos. Nosso grande prêmio foi ter estado entre 60 mil torcedores (e outros milhões que acompanharam pela TV, internet ou rádio) fazendo uma festa tão bonita como há muito tempo não se via nas Minas Gerais.

Alegria é ver os jogadores satisfeitos por vestirem nosso manto, sem flertarem com outras torcidas. É ver um técnico vencedor como o Luxemburgo comemorar um título regional como se fosse um menino, e é ver um respeitado comentarista de nível nacional dizer que há muito tempo não se via o Luxa tão animado, tão feliz trabalhando em um clube.

Para cada um dos milhões de atleticanos espalhados pelo Brasil e pelo mundo, todos os jogos do Campeonato Mineiro foram importantes. Os gritos apaixonados de gol foram se transformando, um a um, no ouro puro que fez a taça.

Se todas as torcidas aprendessem com a nossa, poderiam entender porque celebramos o Campeonato Mineiro como se fosse um mundial. É que nós escolhemos comemorar cada gol como se fosse o mais bonito, cada vitória como se fosse a primeira, cada conquista como se fosse a mais importante.

Sabemos que é muito bom chegar ao local de destino. Mas sabemos que melhor ainda é ter olhos para a beleza da estrada pela qual escolhemos caminhar.

E nisso, que nos desculpem os demais, a massa Atleticana é mestre. É suprema campeã mundial!

Parabéns, Galo, senhor das alterosas!

PARA SEGUIR A ANA CRISTINA NO TWITTER, CLIQUE -> @anacrisgontijo

PARA SEGUIR ESTE BLOGUEIRO NO TWITTER, CLIQUE -> @robertoclfilho