Arquivo da categoria: Crônicas de Jota Queiroz

PEÃO – CAM – PEÃO

[uma releitura da letra de “Construção” de Chico Buarque, à luz da mais importante conquista do Clube Atlético Mineiro, que para mim não foi apenas o título, mas a autoestima de todos nós, os incontáveis “peões”.]

colunadojotaqueirozAcordou, ajoelhou, e fez uma súplica.

Sentia que essa noite seria única.

Subiu, foi trabalhar como se fosse máquina,

Até soar o apito da velha fábrica.

Enquanto a rua transbordava o grande público,

Seguia seu destino em passo lépido.

Vestiu o manto como faz um príncipe,

coração em festa como se fosse sábado.

Dançou alucinado quando ouviu a música,

daquele inigualável hino  mítico,

sem se importar que já o vissem bêbado,

Correu em passo largo e um tanto trôpego.

Comprou o ingresso sem calcular a dívida,

certo de que receberia a justa dádiva.

Aquela noite que sonhara negou ser rápida,

cada minuto tornou-se inclemente látego,

para desaguar, enfim, em momento único:

A bola, a trave e o derradeiro pênalti!

A multidão explodiu em verdadeiro êxtase

Incomparável música: o hino mítico

Todos cantavam em perfeito uníssono

Não lhes havia consciência lúcida.

Felicidade plena contagiou o público:

– Criança em encantado instante lúdico

– Homem extravasando em verdadeira lágrima

– Mulher se encantando com o amado cônjuge

– Até o rapaz abraçou a moça tímida

Roubou-lhe um beijo como se fosse lícito…

Tomaram a rua interrompendo o tráfego

E não a devolverão até findar o século…

O peão voltou no tempo qual se fora mágico

E foi se ver menino numa noite trágica,

na mesma outrora arquibancada úmida

Por incontáveis anos de infinita lástima,

com a faixa sanou-lhe amarga lágrima.

O menino outrora desejou um título,

já não ousava mais um sonho utópico.

Julgando perdida tal pretensão quimérica;

foi Libertado conquistando extensa América.

 

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A ALMA DO GALO

Há alguns meses escrevi um texto para o L&N, no qual comentei que ainda não havíamos concluído um jogo que ocorreu há muitos anos. O tempo parece ter parado ali, naquela fatídica final de campeonato contra o São Paulo (campeonato brasileiro de 1977).

Aos que não se lembram _ ou os que talvez nem eram nascidos naquela época _ saibam que fomos vice-campeões invictos. Fizemos uma campanha memorável. Éramos, de longe, o melhor time do campeonato. E perdemos sem termos perdido. Na verdade, não perdemos: entregamos o que era nosso.

Precisamos urgentemente descobrir o que aconteceu. Por que deixamos o campeonato que estava em nossas mãos ser levado por um time muito inferior, mas que lutou muito mais, mostrou muito mais raça e vontade de vencer? Porque aquele time que nos representava não seguiu nosso ideal? Deixar-se vencer, em nossa própria casa!  Bastava um mísero golzinho, Galo. Os deuses do futebol ainda não nos perdoaram.

Quem estava no Mineirão naquela tarde-noite sabe do que estou falando. Temo,  inclusive, que o Galo tenha morrido naquele dia e o que vaga por este mundo é apenas uma caricatura, um espectro, um zumbi, uma sombra, sei lá. Na verdade, creio que o corpo ainda sobrevive; e, de alguma forma misteriosa para mim, foi a alma do Galo que se viu despojada… e vagueia, sem saber para onde ir.

Então é isso, enfim entendi! O Galo perdeu sua alma. E isto aconteceu lá, naquele jogo, quando então teve início toda esta nossa história, que desde então é marcada por tragédias.

Talvez, Galo, sua alma esteja bem perto, mas você não consegue vê-la. Sua alma o aguarda, mas você não se empenha em encontrá-la. Insiste em viver apartado dela. Mostrou isso muito bem na última partida que jogou neste ano de 2011. Esta última goleada que você sofreu nada mais é do que a continuação daquele jogo de 1977. Você tem sido pusilânime, Galo!

Os jogadores que entraram em campo nesta goleada vergonhosa, simplesmente não sabem o que é a alma do Galo. Jogam por si mesmos, assim como os soldados que lutam numa guerra, não para defender seu povo, sua nação e os ideais da mesma. Lutam por si e para si. A estes se dá o nome de mercenários.

Galo, você ainda nos deve o campeonato de 1977. Você ainda não terminou aquele jogo. Enquanto não voltar lá, ao gramado, e reconquistar aquele campeonato que  permitiu que nos levassem, continuará assim, como um corpo moribundo, caído, chutado, cuspido, escarrado e pisado. E pior: inerte!

Galo: devolva-nos o que é nosso. Queremos a alegria, a autoestima, o amor próprio, os nossos valores e nossos ideais. Galo: devolva-nos a nossa vida. Devolva-nos você!

Assinado: sua alma, a Massa!

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