Arquivo da categoria: Crônicas de Roberto Lopes

GALODEPENDÊNCIA

colunarobertolopes2Eu tenho, tu tens, ele tem. Nós temos, vós tendes, eles têm.

O torcedor do Galo está dependente. Psicologicamente afetado pela campanha do time. Quimicamente viciado na adrenalina dos jogos.

Para muitos de nós, nunca houve ano tão feliz. Todos aqueles que não viram Reinaldo, Cerezo, Éder e Luisinho jogarem, não viram nada parecido com o que é o Galo de hoje. Eu vi e o vício nunca mais passou. Nas épocas de vacas magras, vivi, qual bebum meio recuperado, um dia de cada vez. Hoje, alguns dias sem vitória dão tremedeira.

Agora, o quadro mudou de vez. Ronaldinho Gaúcho, em carne e osso, declarou que nunca foi feliz como está sendo aqui. Parece pouco? Soa como mentira para ouvidos calejados pela zoação de adversários? Pois eu garanto que representa muito, e é verdade.

É verdade porque está na cara de qualquer um que queira enxergar. Vejam os melhores momentos do jogo com a Ponte. Reparem na festa que Ronaldinho faz para Danilinho no primeiro gol. Notem como ele ficou contrariado com o empate, não deu entrevista protocolar, não falou de 3 pontos, nada disso. Foi seco: – “vacilamos”. Estava pê da vida. Você fica pê da vida com algo que não lhe importa?

Lembrem-se da comemoração longa, depois da arrancada fenomenal que as marias nunca mais vão esquecer. Ronaldinho ciscou no gramado. Ele está feliz.

E os efeitos disso? Pense no Bernard ouvindo o cara, que ele colocava no time do Playstation, dizendo que jogar no Galo é o melhor que está tendo. Pensou? Agora vá além, pense no menino-craque que está surgindo na base de qualquer outro time do Brasil, ouvindo isso. Não é óbvio que qualquer um que ouça vai se perguntar “por quê”?

Por quê um craque, um monstro da bola, com a história que ele tem, com as conquistas que tem, diria isso? E a resposta é o time sim, e é o momento dele também, mas é, ao mesmo tempo, a estrutura, a seriedade da administração e a força da torcida, que não tem igual.

Não vamos nos deixar abater pelo empate com a Ponte. Isso acontece, infelizmente. Vamos curtir o momento e apoiar o time, porque não há nada mais ATLETICANO a se fazer. Se você está vivendo isso pela primeira vez, deixe-se levar e esqueça sua corneta em casa.

É por isso que eu tenho, você tem, todos temos e, agora, Ronaldinho também tem Galodependência.

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2013, O ANO EM QUE NOS LIVRAMOS DE TODAS AS ZICAS

colunarobertolopes2Como diria o filósofo: Autoriza o árbitro Patrício Polic, Riascos parte para a bola, ele vai com o pé direito, bateu…

E tome reticências.

Parou tudo. Nem o Super-Homem faria o mundo voltar a girar imediatamente. Se a Lois Lane tivesse morrido na hora do pênalti, estaria frita.

Parecia roteiro de cinema, caro amigo atleticano: o ano começou marcado pelo 13, o que nos fez apelidar esses mágicos 365 dias de “Dois Mil e Galo”. Ora, se para atleticano que se preze, até dia 13 é de se comemorar, e a hora de 13:13 é sempre motivo de alegria, o que dizer de um ano que é o primeiro treze de um milênio novo?

Pois é: Dois Mil e Galo começou com o torcedor cheio de esperança, acreditando que até os astros estavam conspirando para que as coisas começassem a mudar PRA VALER, com títulos, sem bater na trave, como foi em 2012. Aliás, não ouvi de ninguém, mas tenho certeza de que, quando o mundo não terminou em 21/12/2012, teve atleticano virando a folhinha, mirando o 13 e pensando: agora, vai!

A quantidade de vezes em que o 13 se repetiu neste ano (além do número do ano em si) é incrível. O Galo começou sua caminhada na Libertadores num dia 13, e chegou a uma final marcada para uma data em que os dígitos somavam 13. Um novo Papa foi escolhido: “Papa Francisco”, com treze letras, como tinha que ser. Há um monte de outras pequenas coincidências – para quem é mais pragmático – ou sinais – para os esotéricos: o Galo seria – e foi – o décimo-terceiro clube brasileiro numa final de Libertadores, assim como Cuca foi o décimo-terceiro técnico brasileiro a ser campeão. O juiz que apitou o primeiro jogo da final era – adivinhem? – o décimo-terceiro árbitro argentino a apitar uma final de Libertadores. Tem mais um monte de 13 escondidos por aí, é só procurar.

VINHODOROBERTOLOPESO meu registro particular aconteceu no final de semana que ficou ensanduichado entre a quase tragédia do Paraguai e a redenção do Mineirão: estava com minha mulher e um casal de grandes amigos atleticanos em um restaurante e pedi um vinho da adega, sem nunca tê-lo experimentado e sem ter informação nenhuma sobre ele, exceto pelo conselho do sommelier. Quando chegou o vinho, a garrafa era numerada, e o número da minha garrafa era 1365. Não bastasse começar com 13, 65 também é múltiplo de 13, e 1365 é igual a 105 vezes 13. Cento e cinco anos de Galo, vezes Galo. Foi demais para mim, e eu soltei um palavrão para o sommelier que, incrédulo, diante da minha explicação matematicamente atleticana, tomou a garrafa da minha mão, olhou o número, e disse: – Caramba, não acredito! Vai, Galo! Essa é nossa!

Ele me devolveu a garrafa com o cuidado de quem carrega um bebê de 10 dias, e eu a guardei até o dia da final, com rolha e tudo. A foto está aí do lado.

Agora, ao que interessa: neste ano em que tudo é 13, e 13 é Galo, nosso roteiro escrito lá de cima – tenho dúvidas se por Roberto Drummond ou por Hitchcock, que eu suspeito que seja atleticano – estava montado para fazer uma drenagem linfática na alma calejada do torcedor do Galo, lembrando-o de como é acreditar sempre, saber, do fundo da alma, que vai dar certo.

Começamos a Libertadores contra o clube brasileiro que mais vezes venceu o torneio. Tinham tradição, nós não. Atropelamos, com um lance de gênio de R10, que deveria passar a se auto-numerar R13.

Registramos a maior goleada de um time brasileiro em terras argentinas, e consagramos de vez Bernard, que foi à seleção e não saiu mais. Saiu do Galo, mas o Galo não saiu dele, um dia volta.

Vencemos a altitude criminosa da Bolívia. Com Serginho em campo, dando o passe para o gol da vitória. Só isso já era estranho o suficiente para fazer o atleticano desconfiar de que algo estava mesmo diferente.

Nas oitavas de final, quis o destino que o São Paulo cruzasse outra vez nosso caminho, e a imprensa não se acanhou em apresentar prognósticos que tiraram o sono dos atleticanos: iríamos ficar por ali mesmo. Só que não. Duas vitórias, uma de virada e uma de lavada, e a tradição deu lugar à competência.

Fomos ao México jogar num campo de brinquedo e conseguimos um empate em 2 a 2, no último lance do jogo, depois de estarmos perdendo por 2 a 0. Ali, algo começava a mudar definitivamente: num daqueles momentos em que tudo dava errado antes de Dois Mil e Galo, a bola, ao invés de bater na trave e ir para fora, entrou. Não apareceu um zagueiro para tirar. O juiz não marcou falta ou perigo de gol. Aos 46 do segundo tempo. Será?

No Horto, achamos que era só esperar passar os 90 minutos, mas nosso roteiro estava num daqueles momentos cruciais. Que São Paulo, que nada, o Tijuana é que era o Jason e tentou ressuscitar aos 46 do segundo tempo, com um pênalti que teve o peso de décadas de má sorte. Eu não acreditei, acho que ninguém entendeu direito quando o juiz saiu correndo apontando para a marca da cal. Muita gente foi embora, como que fugindo de todo um passado de frustrações e “quases”. Só que não. A canhota salvadora do nosso goleiraço Victor foi a machadada que cortou a cabeça do Jason mexicano. E nosso roteirista, nos dois jogos contra o Tijuana, nos fez ver que nossa zica de perder nos minutos finais – jogos, classificações, títulos – estava extinta.

Semifinais e finais foram capítulos parecidíssimos, com desvantagem de dois gols na ida, vantagem de dois gols na volta,  sempre nos minutos finais, para acabar com o coração de qualquer ser humano. Teve apagão. E pênaltis, amigo! Pênaltis! Contra o NOB, nos livramos da zica dos pênaltis, em que sempre éramos desclassificados. E, porque não dizer, das semifinais, onde tantas vezes caímos no Brasileiro e das quais nunca passamos na Copa do Brasil. Outra zica histórica expurgada.

Na final, tivemos a ajuda do Sobrenatural de Almeida, que corrigiu a teimosia de Cuca, deu um cartão vermelho pro Richarlyson e colocou Junior Cesar na lateral esquerda, além de ter se unido a um exército de atleticanos já desencarnados para puxar o pé do atacante paraguaio naquele lance inesquecível. E, pra ficar perfeito, vivemos também  a redenção maior: pênaltis, no Mineirão, no mesmo gol onde, em 1978, o Galo conseguiu errar mais cobranças do que o São Paulo e perder o título do Brasileiro de 1977. Era o que faltava, não falta mais. O roteiro que decretou o fim de todas as zicas estava completo.

O mundial? um detalhe para mostrar que, mesmo sem zica, o time precisa jogar bola, e esquadrão nenhum do mundo está imune a atitudes equivocadas como foi a do Cuca, abandonando o barco antes da hora.

Ah, é mesmo, voltemos ao Riascos. E aquele dia, no Horto, depois que o Riascos partiu para a bola? Onde você estava? O que sentiu? O que fez?

Eu estava lá, olhando sem querer olhar, quase na linha da pequena área daquele gol que o Victor defendia. Lembro de, nos segundos que antecederam a cobrança, pensar naquela torcida indo embora triste e afastar o pensamento: não, hoje não. A bola marretada pela canhota do Victor veio na minha direção e eu demorei alguns décimos de segundo para entender o que tinha acontecido. Caída a ficha, pulei no pescoço do meu pai, flamenguista que me levou ao Mineirão nas primeiras vezes que vi o Galo jogar. Dei um grito que deve estar ecoando na cabeça dele até hoje. Não foi um grito de Galo, de gol, de “defendeu”, de nada disso, foi só um grito do fundo da alma, coisa meio animal. Se eu tivesse que apostar numa tradução, acho que gritei, na língua dos homens de Neanderthal: sai, Zica! Aqui é Galo, porra!

Feliz Dois Mil e Sempre, Galo. Que você nunca mais deixe de acreditar. Da minha parte, EU ACREDITO!

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O DIA EM QUE MINHA MÃE SE TORNOU ATLETICANA

colunarobertolopesNa campanha do Galo de 1999, a partir das oitavas de final, eu adotei um ritual. Como morava no Rio de Janeiro, vinha todo final de semana que tinha jogo, ia ao Mineirão e pegava a estrada direto para voltar depois dos jogos. Chegava ao RJ de madrugada, sempre feliz.

Naquele ano, pra quem se lembra, os mata-matas eram em três jogos, sendo os dois últimos na casa do time que tinha feito melhor campanha. O Galo chegou à final contra o Corinthians, um jogo no Mineirão, dois em SP.

Vim para BH, obviamente. Na saída para comprar os ingressos, perguntei para minha mãe e para minha irmã se não queriam ir comigo. Não há notícia de qualquer uma delas em um estádio antes disso. Disse para a minha mãe que ela ia se apaixonar pela torcida do Galo. Ela se animou, acho que mais pela minha empolgação do que por qualquer outra coisa – mãe é mãe – e decidiu ir. Ficou toda feliz quando emprestei para ela uma das minhas camisas do Galo, para ela poder ir vestida a rigor. Minha irmã, flamenguista como meu pai, disse que ia também, mas se recusou a vestir uma camisa do Galo.

Minha mãe gostava de futebol, mas nunca tinha declarado torcida para nenhum time. Dizia que torcia para a seleção – e como torcia, ficava doidinha. Era comum ouvir ela explicando, depois de alguma vitória do Brasil: “Isso é bonito demais, gente!”

Aliás, se tinha Brasil escrito em algum lugar do uniforme, podia ser seleção de qualquer coisa, purrinha ou copo d’água, ela torcia, e muito.

A paixão da minha mãe era essa: o Brasil. O esporte era só um meio de comunicação com a pátria. Não é difícil entender porque uma mulher que era 100% a favor da liberdade e foi presa, grávida de nove meses, no auge da ditadura, gostava tanto de poder gritar Brasil sem medo.

Pois lá foi ela, vestida de preto-e-branco, mais por amor ao filho do que por amor ao Galo. Naquele dia estiveram em campo 90 mil atleticanos. Chegamos bem mais cedo, para ter certeza de pegar um bom lugar na arquibancada, e então tivemos tempo de saborear a torcida durante muito tempo antes do jogo.

O Galo fez um gol com 1 minuto de jogo. Não me esqueço da cena da Gaviões abaixando o bandeirão correndo para ver o que tinha acontecido.

O Galo deu um show e ganhou por 3×2. A torcida deu um show maior  ainda e, cantando o hino, ganhou mais uma integrante, minha mãe. Vestida em preto-e-branco, ela explicou: “Isso é bonito demais, meu filho!”, e me agradeceu muitas vezes, depois desse dia, por ter proporcionado a ela a visão tão próxima de 90 mil amores incondicionais.

Julia se foi num dia 13, no ano de 2011. Sofreu um AVC logo depois de passar a madrugada torcendo para a seleção brasileira de vôlei. Sempre brasileira. Sempre minha mãe. Atleticana desde uma vez, em 1999, até morrer.

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TORCEDORES TÊM QUE SER DE VERDADE, ORGANIZADOS OU NÃO

colunarobertolopesHá algum tempo tenho pensado mais sobre torcidas organizadas do que ordinariamente faço. Como nunca fui integrante de uma, e sempre me preocupei mais com o time do que com elas, esse tema nunca mexeu muito comigo. É possível que este seja mais um dos muitos sintomas dessa insensibilidade que o mundo de hoje provoca na gente. Minhas reflexões recentes, aliás, começaram de forma meio egoísta, por conta de seguidas decepções causadas por fatos envolvendo a principal torcida do Galo (durante anos, quase a única): a Galoucura.

Integrantes dessa torcida assassinaram um cruzeirense há algum tempo. Nada justifica um absurdo desses.

Depois da reabertura do Independência fui a praticamente todos os jogos no estádio, da Copa do Brasil, do Brasileiro, do mineiro e da Libertadores. Concluí que a Galoucura já não é a mesma. Em vários jogos, a torcida não-organizada apoiou e empurrou muito mais do que a organizada. Ninguém me contou, eu vi e ouvi.

Há algumas semanas, finalmente, vim a saber que a torcida confeccionou (parece que já faz mais tempo) uma bandeira com Renê Barrientos, o militar boliviano que prendeu e matou Che Guevara. A pergunta óbvia: mas por quê isso? A resposta: é porque o símbolo da organizada rival azul-calcinha é o revolucionário argentino-cubano. A Galoucura justificou, em nota oficial no site, dizendo que não tem nada contra a democracia ou a favor da ditadura, mas fez isso apenas por rivalidade.

Barrientos tomou o poder na Bolívia com um golpe apoiado pela CIA, e derrubou um governo democraticamente eleito. Insanidade, burrice, ignorância, tudo tem limite. Meu respeito pela Galoucura, que já foi grande e veio minguando, acabou de vez.

Obviamente, não é privilégio nosso. Há algumas semanas aconteceu o inacreditável episódio da morte do menino Kevin Spada causada por integrantes da organizada do Corinthians. O clube foi punido, a princípio de forma mais dura, e depois a Conmebol “aliviou”. Um menor de idade, aparentemente “laranja”, veio a público dizer que era o culpado, e, ao que tudo indica, ganhou uma bolsa de estudos da torcida, agradecida que estava.

A torcida do Coritiba quebrou o estádio quando o clube foi rebaixado, há alguns anos.

Membros da torcida organizada do Palmeiras acabam de agredir o time no aeroporto. Esse pessoal, aliás, é bom nisso, já deve ser a centésima vez que eles agridem jogador do time.

Exemplos não faltam.

Qualquer reflexão sobre estas organizações e sobre as pessoas que as integram passam por uma pergunta: O QUÊ eles são? São torcedores, ou outra coisa? O quê?

Então, quem é torcedor e quem não é? Qualquer um que vai ao campo é torcedor? Para mim, não.

É torcedor, penso eu, quem vai ao campo e leva seu filho, sua filha, seu pai, sua mãe, para que estes sejam testemunhas de um ato de devoção, de amor. É quem se junta com os amigos para fazer crescer o apoio ao time. É quem vai para o campo, sozinho que seja, cantar o hino e gritar o nome do clube, e até xingar o juiz, por quê não? Não é quem sai de casa para brigar ou cantar que “vai dar porrada” e fazer e acontecer.

Torcedor, na minha opinião, é quem vai ao campo só porque gosta do time, porque quer vê-lo ganhar. É quem dá seu amor, seu tempo, seu dinheiro, sem pedir, esperar ou receber nada em troca. É quem gasta o salário para comprar ingresso, refrigerante, cerveja, passagem, tropeiro e o que mais houver, e dá seu tempo e sua voz ao clube que ama para estar ali, no estádio, sem receber NENHUMA vantagem do clube por isso.

Se houver qualquer contrapartida do clube, a relação, para mim, já não tem o mesmo valor. Já não é torcedor, é outra coisa e, sinceramente, saber que outra coisa é essa importa mais para a polícia do que para a torcida de verdade.

Ninguém sabe direito o que as organizadas ganham, mas é certo que ganham. Em alguns casos, ingressos de graça, às vezes ingressos mais baratos, que repassam com lucro, igualzinho (!) aos cambistas, outras vezes o transporte. Procure na internet e você vai ver. Em governança corporativa, dá-se a essa situação o nome de “conflito de agência”, onde quem deveria defender os interesses de quem o colocou em determinada posição acaba defendendo interesses próprios e conflitantes e, ainda que não deliberadamente, termina prejudicando aquele que deveria ser beneficiado.

A torcida deveria se organizar, sim, mas a torcida de verdade, aquela que gosta do clube, não do bolso do clube. Aquela que não tem conflito de interesses. No caso do Galo, movimentos organizados recentes, como os Embaixadores do Galo, a Fúria Alvinegra, o Movimento 105 Minutos, são exemplos de torcedores reais que se organizaram para torcer. Isso é torcida organizada, como o próprio nome diz.

A gota d’água, aliás, para eu escrever este texto, foi uma sequência de tuítes dos Embaixadores do Galo de dois dias atrás, onde eles disseram: “Agradecemos o carinho, os elogios que nós, Embaixadores do galo, estamos recebendo. Mas é bom enfatizar que fazemos parte da MASSA… e é a Massa q faz com que tudo isso seja um show! Somos uma das atraçoes. Agradecemos o apoio de todas as torcidas que nos acolheram de braços abertos e entenderam a nossa causa… Nao estamos concorrendo com ninguem. É TUDO EM PROL DO GALO MAIS LINDO DO MUNDO… Só uma obs: CAIU NO HORTO ,TA MORTO!!!!!”

Gente que não é torcedor DE VERDADE, que tem interesses contrapostos aos do clube, não pode formar uma “torcida organizada”. Pode, no máximo, formar uma organização qualquer, mas para se aproveitar, não para “torcer”, no sentido puro – e verdadeiro – da palavra.

Se eu pudesse falar a todos os atleticanos, que eu acredito – e os números provam – serem muito acima da média como torcedores, pediria para irem a campo, para cantarem o hino, gritarem o nome do time, apoiarem o tempo todo. Pediria para nunca vaiar ou xingar jogador, pelo menos não antes de acabar o jogo. Pediria, enfim, para nunca cantarem gritos de qualquer organização que, não estando ali incondicionalmente, está abaixo deles, torcedores verdadeiros, na relação com o time.

Cabe a nós, torcedores, apenas isso: torcer pelo Galo. Não nos aproveitarmos dele.

Cabe ao Galo não se deixar usar.

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O ATLETICANO JÁ NÃO PODE SER BUDISTA

colunarobertolopes2Na minha adolescência, eu ouvia o Legião Urbana, na voz do Renato Russo, um poeta, dizer que “toda dor vem do desejo de não sentirmos dor”. Para quem não sabe, a música fazia referência ao Tao Te King, o “Livro do Caminho Perfeito” do Budismo.

Buda entendeu o ser humano na sua essência: se nos desapegarmos, se por nada esperarmos, não nos decepcionaremos, não nos frustraremos. Seremos felizes, enfim.

Se alguém me perguntasse, três, quatro ou cinco anos atrás, se eu esperava ver meu time pronto para disputar tudo quanto é título, eu diria que não. Diria, provavelmente, que gostaria muito que isso acontecesse, mas não esperaria por isso. É que, mesmo para nós, reles seres humanos não-divinos, não-transcendentes, longe de sermos Buda, a experiência conta e aprendemos a nos proteger das frustrações. Se Buda viesse pregar para um matuto no interior de Minas, certamente ouviria: Ah, intendi, sim, sinhô! Concordo dimais, sô! Cachorro murdido de cobra tem medo de linguiça!

Pois eu e muitos atleticanos aprendemos a não esperar. A torcer, mas desapegadamente, até olhando meio de rabo de olho, como se fosse certa a decepção no final. Desconfio que é também por isso que, se todo torcedor ama seu time, o atleticano vai além, ama incondicionalmente. Não espera nada em troca, embora queira que venha. Apóia o tempo todo (entenderam, cornetas?).

2012 e 2013 nos colocam diante de um paradoxo sentimental-futebolístico: como não esperar? Como desacreditar da possibilidade de título com esse time, com esse banco, com esse técnico? Com essa torcida?

Há alguns anos, eu não esperava que meu time tivesse R10. Torcia por, mas não esperava, ver nascer no Galo um craque como Bernard. Torcia, mas não acreditava que fosse ver chegar de volta Tardelli, e virem Victor, Junior Cesar, Pierre e outros. Não apostaria que meu time teria a melhor zaga do Brasil, com Giba e Rafael Marques na reserva.

Antes de começar a Libertadores, eu queria MUITO, mas me continha para não esperar que o Galo começasse atropelando todo mundo. Aí foram lá e fizeram isso tudo. Me sinto até meio traído na minha desconfiança defensiva.

Meu time só não foi campeão brasileiro ano passado porque o apito não deixou. Meu time tem R10, Bernard, Victor, Réver, Pierre, Tardelli, Jô, Léo Silva e companhia. Meu time é 100% na Libertadores com a maior goleada que uma equipe brasileira já aplicou em terras argentinas. Meu GALO levou quase 4000 Atleticanos, assim mesmo, com A maiúsculo, a Buenos Aires num jogo da fase de grupos.

Atleticano escaldado tem medo de água fria? Tem, uai, mas como é que faz?! Muitos não acreditamos, mas nos deram, então, só nos resta dizer: foi mal, Buda, vai dar para seguir seu livro, não. Bora ganhar tudo que vier pela frente, que nosso time é foda!

Ah, e anota aí, na contra-capa do seu livro, Buda: caiu no Horto, tá morto! Certo?

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GALO, FUTEBOL E AS COISAS MAIS IMPORTANTES DA VIDA

colunarobertolopes2Quem gosta de futebol certamente já ouviu que se trata da coisa mais importante dentre as menos importantes. A frase é de Arrigo Sacchi, que foi treinador da seleção da Itália. Nunca gastei muito fosfato examinando essa afirmação. Intuitivamente, entretanto, sempre me pareceu fazer sentido. Filosofias à parte, fato é que, esteja ou não o futebol entre as coisas mais importantes da vida, ser torcedor nos proporciona momentos inesquecíveis.

E…

Aposto que você pensou no jogo contra o Flu! Com razão. Neste ano, a palavra inesquecível está irremediavelmente vinculada àquele jogo épico. Não é diferente comigo, mas não é disso que eu quero falar. Nesse campeonato, eu vivi um momento ainda maior.

Era do início pro meio do segundo turno, rodada importante, jogo do Galo com o Grêmio no Independência. Estava eu colocando a camisa do Galo (a da sorte, óbvio), quando aparece Fernanda, minha filha de 4 anos: – Papai, você vai pro campo?

– Vou, filha, hoje é dia de torcer pro Galo de novo!

– Papai, que dia eu vou poder ir ao campo?

(…)

– Pois é, filha, algum dia desses eu vou te levar…

– ?

[olhinhos me encarando]

(…)

[neurônios trabalhando]

(…)

– Peraí, filha, vou falar com a sua mãe.

Minha mulher tem pavor de acontecer alguma coisa com criança em campo de futebol. E, para piorar, é cruzeirense, de forma que todos os meus argumentos sentimentais, do tipo “mas é o GALO!”, não costumam funcionar.

Bem, fato é que empenhei saliva e argumentos, prometi pra essa geração e para a próxima, assinei promissória da alma e do corpo, liguei para o Corpo de Bombeiros, mostrei o plano de evacuação em caso de emergência, avisei a PM para ficar de prontidão e… consegui! Minha gatinha iria comigo ao jogo. Aí, foi uma festa só: colocar a roupa toda do Galo – até a meia era do uniforme -, pegar uma blusinha e simbora pro campo.

Quando chegamos lá, ela viu aquela festa linda da torcida, como sempre. Fernanda ficou maravilhada com o bandeirão, gostou dos fogos de artifício, adorou o Galo Doido. Quando o time entrou em campo, ela gritou junto comigo. Quando o jogo estava para começar, perguntou:

– Papai, o jogo já acabou?

– Não, filha, ainda nem começou.

– Ahhhh…

Ela assistia. Não estava entendendo muita coisa, mas estava ali, e isso era tudo que importava. Eu tentava explicar quem era o juiz, onde nosso time tinha que fazer gol, que o moço com roupa diferente era nosso goleiro. Um jogador do Galo caiu depois de uma entrada dura, e ela, preocupada:

– Papai, o moço do Galo machucou…

– É, filha, mas ele já vai melhorar.

– Por quê o outro moço machucou ele?

– Foi sem querer, filha…

Lá pelos trinta e cinco minutos, pediu para sentar no meu colo, se aconchegou. Para quem foi ao Independência naquele dia, é fácil lembrar do frio que estava fazendo. Veio o intervalo de jogo e, quando olhei pra ela, estava dormindo. Até então, eu achava que nunca ia chegar o momento em que alguma coisa me fizesse deixar o Galo no meio de um jogo. Mas minha menininha estava ali, dormindo e provavelmente com frio.

Aí, até o Galo ficou menos importante do que as coisas realmente importantes. Fui embora no intervalo, feliz da vida. Naquele dia, o Galo empatou, mas eu ganhei de goleada!

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ENTÃO, TÁ, GALO!

colunarobertolopes2Venhamos e convenhamos, o 2º turno do Brasileirão não foi, até agora, o que sonhávamos. Nosso time perdeu, durante rodadas a fio, a pegada que o caracterizou durante todo o 1º turno. Explicações temos muitas. Nenhuma resolve o problema de que estamos seis pontos atrás do líder e pode ser que não dê mais tempo de alcançá-lo.

Pausa. Daqui a pouco voltamos ao que pode ou não pode ser.

Pense, caro amigo atleticano, o que foi que fez o Galo no jogo contra o Flu?

Jogou muita bola? Ganhou? Virou o jogo? Massacrou? Humilhou? Calou?

O time fez tudo isso sim. Mas, além disso, o Galo conseguiu o que nem o mais otimista dos atleticanos imaginaria: provou, EM UM JOGO APENAS, quem deveria – e ainda deve, mesmo que não aconteça – ser o campeão brasileiro de 2012.

O Galo mostrou para o Brasil inteiro que há um time, neste campeonato, que jogou e joga mais bola do que todos os outros. Fez nove faltas no jogo inteiro. Chutou sete vezes mais a gol, teve quase 10% a mais de posse de bola e, mesmo assim, acertou mais passes, 90%. Teve onze chances reais de gol, contra as apenas duas que o adversário conseguiu converter. Levantou 26 bolas na área, contra 6 do adversário. Colocou três bolas na trave, como havia feito com o Atlético-GO, lanterna, no primeiro turno. Aí você pensa: ah, mas nesse jogo só o outro time contra-atacou. Que nada! Contra-atacamos 8 vezes, contra 3 deles. Mesmo no jogo deles, só dava “nóis”.

Em nenhum outro jogo do campeonato – NENHUM – a diferença de finalizações entre os times foi tão grande, segundo o Globo.com. O Galo reduziu o Flu ao tamanho da série C da qual ele nunca saiu legitimamente.

Aliás, é bom que se diga que os chiliques do técnico, dos jogadores, da diretoria e dos torcedores do Flu, principalmente no pós-jogo, mostram bem como é incômoda a realidade que o Galo lhes jogou na cara. Eles queriam ter vindo aqui e saído dizendo: viram por quê nós somos líderes? Saíram se perguntando: por quê é mesmo que somos líderes?

Não se trata de minimizar a campanha do Fluminense. Eles estão fazendo um ótimo campeonato. Mas, na verdade, isso não muda os fatos:

a) Se não tivéssemos sofrido com erros de arbitragem, teríamos cinco pontos a mais do que temos (veja o http://www.placarreal.com.br);

b) Se o Flu não tivesse tido todos os erros a favor que tiveram, teriam oito pontos a menos do que têm hoje (segundo o mesmo site);

c) O Flu não ganhou de nenhum dos concorrentes diretos, em nenhum dos turnos. Nós ganhamos de ambos, Flu e Grêmio, em pelo menos um dos turnos, e não perdemos no outro. Aliás, não só ganhamos, encantamos;

d) Contra meu pensamento anterior, a CBF e o STJD, que, no fundo, são uma coisa só, acabaram fazendo muita diferença. Eu já escrevi antes que temos que pensar grande, parar de torcer contra o sistema. Continuo acreditando nisso, e mais, continuo acreditando que o foco não era, em todos os casos, prejudicar o Galo, como time, como clube, como instituição. O atraso na inscrição do Ronaldinho, a remarcação do jogo com o urubu fujão, a suspensão do Ronaldinho contra o Inter, são todos casos em que o foco era outro, e entramos de gaiato. Isso não muda o fato de que fomos, sim, prejudicados em todos eles.

Muda alguma coisa? Não. Se merecimento ganhasse jogo, eu nem estaria aqui escrevendo isso. Mas merece ser dito.

Espero, com todas as minhas forças, que o conjunto da obra dos últimos três jogos, coroado pela vitória épica, fantástica, irrepreensível do Galo contra o Flu, motive este time para ir além do que já fez, e retomar o posto que lhe cabe por merecimento. O único lugar que nos cabe é o topo da tabela, na última rodada.

Espero que o Flu tenha entendido que, mesmo que ganhe, este campeonato vai lhe ser entregue com uma mancha, e que vamos todos saber que não foram eles o time que jogou o melhor futebol do campeonato.

Espero que este entendimento coloque, na cabeça dos jogadores do Flu, a pressão e a insegurança de estar levando mais do que merecem (até aqui).

E espero, finalmente, que arbitragem deixe o Flu perder.

Dito isto, eu preciso me render a uma realidade, que até me espanta, em sendo eu um orgulhoso integrante da torcida mais chata do mundo, como diz o Kalil: nos últimos jogos, o time tem acreditado mais do que a torcida. Aposto que só uma minoria acreditava que sairia o segundo gol contra o Sport. Quanto o Santos fez o segundo, minha timeline do Twitter pipocou de gente dizendo que íamos tomar de goleada. Quando o Flu abriu o placar, e depois quando empatou em 2 a 2, aposto que a maioria pensou: já era. Não me incluo em todos os casos, mas em alguns, eu também não fui um poço de otimismo. Reminiscências de um passado recente.  Ainda não caiu a ficha de que estamos torcendo para um time que está vários níveis acima do que nos acostumamos a ver na última década.

Fato é que o time batalhou, se entregou, fez por onde e cavou resultados onde as adversidades eram enormes. Acreditou, enfim, mais do que nós torcedores. Três vezes seguidas. Não é pouco não, só quem sabe do que é capaz faz algo assim.

Na mesma linha, quando o Flu abriu os nove pontos, faltando oito rodadas, a maioria deve ter pensado: já era. Eu confesso, quis pensar assim. É mais cômodo, dá menos trabalho e estresse. Vamos focar na Libertadores, já tá bom demais, não é?

Só que o Galo não deixou, não está deixando. Eu não consigo me desligar da possibilidade de uma arrancada final fulminante.

Então, tá, Galo. Que assim seja. Até o último minuto, se precisar e puder, eu vou acreditar. Se, de tudo, não der, vou virar o ano com a certeza de que dias melhores virão. Já chegaram, até.

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