Livro “O Olho do Camaleão”

Nesta seção, postarei partes do livro que estou escrevendo para que seja avaliado pelos leitores do L&N.

Informo que o enredo é ficcional em todos os seus detalhes (datas, idades, acontecimentos, dramas, etc.) e é apenas narrado na primeira pessoa para facilitar as descrições. As personagens da história política brasileira são verdadeiras, participando da trama apenas para nos situarmos no contexto social da época. Dito isso, vamos ao livro “O OLHO DO CAMALEÃO“:

(Os capítulos seguintes sempre serão postados abaixo do anterior, para que não se perca o fio da história.)

                                                  CAPÍTULO 1 – O INÍCIO DE TUDO.

Na tarde do dia 29 de abril de 1960, caiu sobre Belo Horizonte um dos maiores temporais dos últimos anos. Fortes chuvas desabaram pesadamente como espadas brilhantes punindo a cidade e escondendo-a sob uma espuma barrenta e amedrontadora. Os carros circulavam nervosa e precariamente nas ruas de paralelepípedos irregulares, transformadas de repente em imensos leitos de águas revoltas.

Em meio à tormenta, ocorreu o primeiro assalto a um carro-forte no estado de Minas Gerais e os desdobramentos terríveis desse crime constituem o eixo principal da história que vou narrar. Posso dizer que todos os acontecimentos posteriores ao roubo marcaram de forma indelével a minha vida e as de muitas pessoas.

O assalto se deu apenas oito dias depois da inauguração de Brasília. Naquele dia, o presidente Juscelino Kubitschek, depois de sua primeira reunião no Palácio do Planalto, compareceu, acompanhado de João Goulart, ao ato de instalação do Congresso e à solenidade de abertura do palácio da Justiça, inaugurando os Três Poderes.

Na época, apesar de ter apenas 25 anos de idade, eu já possuía uma certa experiência em jornalismo, pois trabalhava no jornal “Correio de Minas” desde os dezoito. Por isso, apesar de formado há apenas três anos, na prática eu já caminhava para me tornar um veterano na profissão.

O meu chefe, Mário Santana, apesar de sua eterna sisudez e infinita grosseria, elogiava o meu talento precoce na profissão. Eu gostava dos elogios, mas odiava os conselhos que vinham logo a seguir. Mas, como todos, eu sabia que ninguém recebia um elogio de Mário Santana impunemente.

Eu era um jovem pasmo com os obstáculos inesperados da vida, contra os quais eu me debatia diariamente e a cada dificuldade surgida eu me perguntava se aquilo era um acontecimento comum na vida das pessoas.

Enfim, eram contradições febris de um homem insatisfeito com o mundo e muito mais consigo mesmo, como de resto, talvez fosse este um padrão de comportamento dos jovens que viveram aquela época de mudanças comportamentais importantes.

Mais adiante, esses questionamentos pessoais virão à baila de forma mais clara na medida em que a história se desenrola.

Para descrever fielmente o cenário em que tudo aconteceu, devo dizer que o final da década em questão estava em plena efervescência.

Depois que Juscelino assumiu o governo, o país tomou um ritmo de crescimento acelerado, em torno de 7% ao ano, bem superior ao nível de crescimento dos dias atuais.

Nos anos posteriores a 1956, ano de sua posse, a produção do aço triplicou, a Mercedes-Benz inaugurou uma montadora em São Bernardo do Campo para a fabricação de caminhões e a indústria naval teve um aporte substancial de recursos, dentre outras iniciativas que mudaram a cara do país.

Montadoras internacionais descobriam o Brasil, gerando progresso e empregos, o que era bom para o povo e bom para os políticos, que agilmente capitalizavam o ganho nas eleições.

Para se ter uma idéia, apesar do que o setor básico da economia vinha realizando, a taxa de inflação anual era de apenas 13,5%, irrisória diante de tal crescimento. O próprio presidente JK sabia que tais medidas inflacionariam posteriormente a economia brasileira. Porém, naquele momento, a prioridade era crescer a qualquer custo. Naquele ambiente de progresso inconteste, a corrupção se esgueirava sob as mesas redondas dos grandes gabinetes do poder.

Não muito diferente da de hoje, a corrupção foi um dos ingredientes que contribuíram para que este livro tivesse sua razão de existir. Não fosse esse desvio coletivo de caráter, talvez estivesse utilizando o meu tempo de uma forma menos trabalhosa. Revelando-me descaradamente cínico, deduzo que a roubalheira de alguns políticos se presta para alguma coisa, afinal.

(Continuação será postada em breve).

                                                       CAPÍTULO 2 – O ASSALTO

O mustang e o aero willys alcançaram a Avenida Amazonas na altura da Praça Raul Soares. Três homens tensos em cada carro. Cinquenta minutos depois, estacionaram no acostamento da rodovia, diante da Petrobrás, já no município de Betim, depois de atravessarem a ponte recém-reformada. Duzentos metros adiante, à direita, uma estradinha esburacada desaparecia dentro do matagal que margeava a rodovia.

Os dois carros estacionaram no acostamento, mantendo curta distância da entrada da vicinal. Um dos passageiros desceu e abriu o capô do motor do aero-willys, deixou-o assim aberto e voltou para dentro do carro. Logo depois acendeu um enorme charuto cubano, exalando um cheiro adocicado de tabaco. O homem sentado no banco do carona falou grosso:

_ Apague o charuto. Suas roupas vão ficar impregnadas com o cheiro e os guardas irão se lembrar disso. Toma aqui um cigarro.

O homem do charuto, a contragosto, puxou uma última baforada e apagou-o, grunhindo um desaforo. Mesmo assim, pegou e acendeu o cigarro oferecido. O motorista, pelo retrovisor, pesquisou a estrada.

_ O carro-forte deve chegar em cinco minutos. – disse. Instintivamente os três apalparam as armas na cintura. Uma metralhadora Ina descansava no colo do passageiro do banco dianteiro.

No interior do mustang, a mesma tensão. Mãos suadas, trêmulas, os rostos contraídos, as veias das têmporas dilatadas. As armas nas cinturas pesavam toneladas. Olhos continuavam fixos na estrada, à espera do seu alvo, enquanto um tamborilar desagradável de dedos incomodava os ouvidos. Outro assobiava uma melodia irreconhecível.

Um deles esticou o pescoço pela janela do carro e olhou preocupado para o céu escuro. Alguns raios ameaçadores davam brilhos compridos às nuvens carregadas de cinza-escuro.

_Vai desabar um toró dos diabos. Espero que os sacanas cheguem antes que a estrada de terra fique intransitável.

O outro respondeu: _ Ainda estão dentro do horário. Só um pouco mais de paciência.

Do rádio, volume baixo, os acordes de “Esses Moços”, de Lupicínio Rodrigues, acariciaram as mentes, como uma leve brisa gelada, mas se foi como veio. Cinco minutos depois, o motorista exclamou excitado: _ Lá vem ele.

O carro–forte blindado, com uma enorme logomarca LINS pintada em azul e branco nas laterais passou lotado por eles, vindo de Belo Horizonte. Reduziu a velocidade chiando os freios e invadiu estrepitosamente a estradinha de terra levantando nuvens de poeira.

Os automóveis permaneceram parados onde estavam. Esperaram vinte e cinco minutos para fechar o capô do aero-willys, dar partida nos motores e alcançar a mesma estrada, desaparecendo entre o arvoredo. Pouco tempo depois, avistaram o furgão da LINS estacionado em uma clareira ao lado de um rústico restaurante, se é que se poderia chamar aquela cabana, quase uma tapera, de restaurante.

Os seis homens enfiaram meias de nylon nas cabeças, desfigurando completamente as feições. Deixaram os carros escondidos entre as árvores, fora da clareira, e se aproximaram a pé, com cuidado e armas engatilhadas.

Contaram quatro homens ao todo. Dois guardas haviam acabado de almoçar e estavam cedendo lugar aos outros que tinham permanecido no carro–forte. Aboletaram-se indolentemente na boléia e pouco depois roncavam com as barrigas cheias.

Mas acordaram com os canos frios das espingardas calibre doze arranhando-lhes os rostos. Por puro reflexo de defesa, os vigias estenderam as mãos para os mosquetões que tinham escorado na porta do carro-forte. Os mosquetões já não estavam mais ali.

Enquanto isso, os homens que almoçavam despreocupadamente foram rendidos. Olhos assustados mergulharam dentro das bocas escuras das armas apontadas para suas cabeças. Um deles, magro e barrigudo, lançou mão da arma na cintura. Recebeu imediatamente uma pancada violenta na face que lhe abriu, do olho até o canto da boca, uma profunda ferida. O sangue que jorrou se misturou à comida farta sobre a mesa. Um estalo horrível de osso malar quebrado soou pela sala. O assaltante continuou dando com a culatra da espingarda na cabeça e no corpo do guarda, até que este desabou ao chão, desmaiado.

Três guardas e duas mulheres da casa, lívidos, foram colocados sentados com as costas na parede e amarrados com várias voltas de fita adesiva. Amordaçaram-nos com algodão e esparadrapo. O que estava desmaiado foi igualmente amarrado. Os assaltantes de caras entortadas pelas meias de nylon gritaram: _ Quem se mexer morre. Não estamos para brincadeiras!

Um deles retirou as balas dos mosquetões dos guardas e guardou-as nos bolsos.

Saíram e saquearam o carro–forte, transferindo os malotes com dinheiro para os automóveis. Quando terminaram, arrancaram a toda velocidade e sumiram no meio do mato em direção à rodovia. Toda a operação não tinha durado mais que dez minutos e não havia sido disparado um tiro sequer.

Cúmplice diligente, tão logo os bandidos desapareceram, a tremenda tempestade desabou sobre a clareira e lambeu-a como a língua áspera de um tigre.

(Continuação será postada em breve).

CAPÍTULO 3 – O CHEFE POLÍTICO DE UBERLÂNDIA

Quando fiquei sabendo do assalto ocorrido em Betim, eu estava em Uberlândia, no Triângulo Mineiro, cobrindo o caso de um fazendeiro que matara o prefeito da cidade só porque este não lhe emprestara o trator da prefeitura para algumas obras em sua propriedade particular.

O tal fazendeiro, um velho coronel do interior e chefe político da região, de nome Sebastião Teodoro, não aceitou o não como resposta, pois se julgava no direito de receber regalias por ter financiado a campanha vitoriosa do dito prefeito.

O velho coronel invadiu a prefeitura, discutiu em altos brados com o prefeito e o final da história foi trágico: o coronel sacou da cintura um revolver calibre 44 das forças armadas e descarregou-o na autoridade, que, por incrível que pareça, só foi morrer depois de uma semana no hospital. E só morreu porque o coronel, ao saber que o mandatário permanecia vivo, apesar de tetraplégico e totalmente imobilizado sobre uma cama, invadiu o hospital e novamente descarregou a arma no pobre coitado. Com tanto chumbo assim, não dava mesmo pra escapar. Dizem que o prefeito, ao ser enterrado, pesava bem uns cinco quilos a mais.

Mário Santana, meu chefe, me enviara para cobrir o caso. Queria que eu entrevistasse a família do prefeito morto e o coronel na prisão. Eu já havia entrevistado a família do falecido e ouvi de seus membros toda sorte de impropérios contra o fazendeiro Teodoro. Mas não consegui encontrar nenhuma testemunha do crime e tive a impressão que nem a promotoria acharia. Pelo visto, o coronel era temido na região.

Quando me dirigia para a pequena cadeia da cidade, ouvi pelo rádio do fusca a notícia sobre o assalto em Betim. Cheguei a parar o carro para entender melhor o acontecido, mas tinha hora marcada. Então segui em frente. Fui recebido pelo delegado Arcanjo dos Anjos, um senhor baixinho e pálido, com um chapéu de vaqueiro enterrado na cabeça e usando uma camisa tão grande que talvez só caísse bem em pessoas com o dobro de seu tamanho.

Ele levou-me até uma sala imunda e mal cheirosa para esperar o coronel. Enquanto este não chegava, fiquei pensando no assalto de Betim e lamentei que estivesse tão longe de Belo Horizonte exatamente naquele momento. Eu podia estar perdendo a oportunidade de, pela primeira vez, ser o autor de uma matéria de primeira página. Olhei para as paredes sujas da salinha e me deu vontade de sair correndo dali.

_Caramba, as coisas estão acontecendo em Belo Horizonte e eu aqui… _ pensei, irritado com a minha má sorte.

Nisso, o coronel Sebastião Teodoro atravessou o seu corpanzil redondo pela porta e até hoje me indago como ele conseguiu tal façanha. O homem tinha lá os seus um metro e setenta de altura e pesava cerca de cento e cinqüenta quilos. Como um monobloco, não dava para identificar onde estava pescoço, tórax ou barriga. Atrás dele, vinha o delegado com aquela camisa que mais parecia uma vela de barco. O contraste físico dos dois imediatamente me lembrou as figuras do Gordo e do Magro e não pude evitar um sorriso importuno, que a custo consegui esconder no canto da boca.

Nos apresentamos e o coronel sentou-se à minha frente com seus grandes olhos escuros pregados em mim, enquanto o velho policial se retirava. A cadeira era pequena demais para o seu peso, fazendo com que sobrasse coronel para a esquerda e coronel para a direita e eu temi sinceramente que o móvel se espatifasse a qualquer momento. Achei melhor iniciar logo a entrevista:

_Coronel Teodoro, o meu jornal tem muito interesse em saber a sua versão dos fatos para que possa divulgá-la aos leitores. Dizem que há muito tempo o senhor vinha se desentendendo com o prefeito. Isso é verdade?

O coronel ajeitou-se milagrosamente sobre a cadeira e respondeu, com a voz firme:

_ Isso é uma mentira deslavada, seu moço. Eu e o prefeito éramos que nem unha e carne. Parceiros políticos, o senhor está me entendendo? Eu praticamente o sentei na cadeira de prefeito. Financiei sua campanha de cabo a rabo e ainda levei muita gente pra votar nele. Só com pau de arara e ônibus vindos de tudo quanto é lugar, eu gastei uma gaita preta que dava pra comprar mais de um trator.

Eu captei a alusão ao principal motivo da escaramuça, o tal empréstimo do trator. Também sabia que era crime eleitoral levar eleitores de graça para votar, mas não disse nada porque o coronel não era boa bisca. Na sua cintura protuberante podia-se facilmente notar o desenho da culatra do revólver por debaixo da camisa. Era a primeira vez que eu via um preso armado! O homem, mesmo trancafiado, mandava e desmandava. Continuei a entrevista, mas me deu uma sincera vontade de encerrá-la logo.

_ Coronel, então porque o senhor atirou no prefeito?

_ Em legítima defesa, seu moço. Eu fui à prefeitura pra ter uma conversinha no pé do ouvido com ele, está me entendendo? Coisa de amigos. Não fui lá pra matar ninguém. Mas o prefeito subiu nas tamancas. Queria me humilhar, me espezinhar. Ninguém humilha o coronel Sebastião Teodoro. Ninguém. Mas só atirei nele porque o filho de uma égua ameaçou tirar a arma da cintura. Então foi legítima defesa e está acabado.

Por suas alegações, deduzi que o coronel já tinha um advogado elaborando a sua estratégia de defesa. Perguntei:

_ E depois no hospital, quando o senhor mais uma vez descarregou o seu revolver no prefeito. Porque, coronel? “Eu gostaria de ter acrescentado _ Foi legítima defesa de novo? _ ” mas não o fiz, pois a tremenda ironia contida na pergunta desencadearia uma reação imprevisível no balofo chefe político e poderia atirar a entrevista no lixo. Tinha de levar aquele sujeito na manha, com muito cuidado.

Eu esperava qualquer resposta, menos a que ele, candidamente, me deu:

_ Foi legítima defesa de novo…

Interrompi, clamando por um pouco mais de respeito à minha inteligência:

_ Mas, coronel, o prefeito já estava morrendo na cama de um hospital…

O fazendeiro vociferou, a voz parecendo um ronco:

_ Não interrompa a minha prosa, senhor repórter, que eu não gosto de ser interrompido. Foi legítima defesa sim. O filho de uma égua estava deitado, e quando me viu, puxou o braço pra debaixo do lençol e eu pensei que fosse pra tirar uma arma. Aí tive de atirar pra defender a minha vida. E olha que só fui lá pra visitar o amigo!

Outra vez tive vontade de escapulir dali, mas prossegui, a contragosto:

_ Coronel Teodoro, o senhor está arrependido?

Respondeu, por entre dentes:

_ Por acaso alguém se arrepende por defender a própria vida? E ademais, se não fosse eu, o prefeito estaria por aí todo entrevado, sem mexer um músculo e com gente limpando as suas necessidades. Isso é vida? Agora ele está no céu, andando direitinho, sem precisar da ajuda de ninguém. A família dele devia me agradecer, isso sim.

Eu ouvia, atônito, aqueles argumentos irracionais. Afora a clara contradição em suas palavras: se o prefeito estava tetraplégico, como pôde puxar a mão pra debaixo do lençol?

O delegado entrou na imunda salinha e perguntou ao coronel:

_ Quer seu lanche da tarde, meu coronel?

O fazendeiro se levantou com enorme dificuldade e não pude deixar de admirar a resistência da pequena cadeira. Ele me olhou e disse:

_ Termina aqui a nossa prosa, moço. Volte pra capital e escreva no seu jornal que o coronel Sebastião Teodoro, chefe político de Uberlândia, é inocente.

_ Mas, coronel, eu ainda tenho muitas perguntas a fazer…

_ Mas não vai fazer porque o meu lanche chegou. Passar bem.

E atravessou a porta com a mesma dificuldade com que entrara. Logo depois, saí para a rua xingando _ em pensamento _ toda a árvore genealógica do coronel Teodoro, pois a entrevista não rendera nem um quarto do que eu pretendia. Também tive a sensação de que a história do lanche não passava de uma reles artimanha combinada entre ele e o delegado para interrompê-la.

Passei rapidamente no hotel para pagar a conta e tirei o tal coronel da minha cabeça, ansiando nunca mais vê-lo. Apesar de cansado, no mesmo dia tomei a estrada para Belo Horizonte, já respirando o assalto ao carro-forte em Betim. Mesmo que fosse preciso dirigir a noite inteira, eu queria estar o mais rápido possível perto dos últimos acontecimentos.

CAPÍTULO 4 – O DELEGADO ALMEIDA

Em 1960, os cruzeiros equivalentes aos pouco mais de oitocentos mil dólares eram uma montanha de dinheiro suficiente para enriquecer qualquer um.

Devido ao raríssimo acontecimento _ por ser o primeiro assalto a um carro–forte no estado _ e ao estrondoso volume de dinheiro roubado, rádios e jornais fizeram o maior estardalhaço. Dentro do “Correio de Minas”, jornal no qual eu trabalhava, os setores de edição e redação viraram um verdadeiro pandemônio à mercê da notícia mais espetacular que o estado de Minas Gerais presenciava nos últimos anos.

O doutor Almeida, velho delegado de polícia conhecido da mídia, foi designado para a investigação.

Era um homem atarracado, largo e de altura mediana. Parecia um touro de tão forte. Vivia metido em um terno surrado que dava a impressão de que não era trocado há semanas. Na cabeça de fartos cabelos grisalhos, um velho e ensebado chapéu se equilibrava às duras penas. Às vezes tendia para a direita, outras vezes ameaçava cair pela esquerda.

Entre seus pares, o doutor Almeida tinha o melhor dos conceitos como policial sagaz, competente e honesto. Estava na casa de cinqüenta e cinco anos e vivia de forma modesta.

Quando se aposentasse, certamente deixaria como legado uma folha corrida de trinta anos de excelentes serviços prestados à polícia. Portanto, a investigação não poderia estar em mãos mais experientes e a opinião pública acreditava que o caso seria resolvido rapidamente.

O delegado iniciou o trabalho pelo que julgava ser o calcanhar de Aquiles de quem planejara o crime, a minúcia aparentemente invisível que o levaria certamente à rápida elucidação do caso.

CAPÍTULO 5 – O DOUTOR ALMEIDA NO BANCO CAPITAL

Se ele conseguisse obter respostas para duas perguntas básicas, a charada estaria praticamente decifrada.

A primeira: Porque um carro–forte transportando valores tão altos se afastaria da rodovia e estacionaria levianamente numa clareira no meio do mato, ignorando todas as regras de segurança?

A segunda: Quais os meios ou pessoas que os bandidos utilizaram para obter uma informação tão valiosa como aquela sobre o volume de dinheiro transportado?

Foi instado por este raciocínio que o doutor Almeida aportou nos escritórios da matriz do Banco Capital no dia seguinte ao assalto. Pisando duro pelos corredores, como de hábito, se dirigiu ao setor de tesouraria, onde os envios de dinheiro às agências eram programados, expedidos e monitorados, ou seja, dali é que saíam os pacotes de dinheiro transportados pelos furgões da LINS.

Foi recebido pelo gerente financeiro, Hélio Vieira, um homem alto e muito magro, tanto que a magreza excessiva dava-lhe uma aparência raquítica. Os olhos de um azul profundo se destacavam como pérolas na cara. Um distinto bigode cobria seus finos lábios curiosamente pálidos. Por causa de uma perna mais curta que a outra, coxeava quase imperceptivelmente, mas quando se apressava, todo o seu corpo se contorcia a cada passo, provocando um efeito estético desastroso. Por isso, ciente do problema, ele sempre andava devagarinho.

Convidado _ mas sem tirar o chapéu _ o doutor Almeida sentou-se à frente do bancário, tendo entre eles uma mesa de madeira absurdamente grande e vergada por pilhas de papéis.

_Sabe o que me traz aqui, não é, Hélio? _ disse, com a voz poderosa ecoando pelo escritório.

Hélio respondeu firme e frio:

_Sim, delegado. Estamos prontos para atender a tudo que você necessitar, se Deus assim o permitir.

O delegado Almeida olhou meio atravessado para o tesoureiro por causa da despropositada religiosidade da resposta. Mas, por não ser um homem de perder tempo, prosseguiu:

_Meu caro, o assalto foi praticado por pessoas que sabiam o valor do dinheiro transportado, do itinerário do carro–forte e principalmente, daquela parada ridícula no meio do mato. Gostaria que me explicasse porque houve a parada e porque parte do pessoal da guarda estava dormindo. Tinham tanto tempo assim?

O bancário manteve a expressão impassível:

_Os trajetos e o montante de dinheiro embarcado são de nossa responsabilidade, delegado. Mas a escala de pessoal, horários e tempos de trajetos são atribuições da transportadora de valores. Eles…

O delegado o interrompeu, um pouco agastado:

_Para que eu não perca meu tempo, quais as informações a respeito dessa rotina você pode me dar?

Hélio torceu as mãos brancas como cera. Não porque estivesse nervoso, tenso ou coisa parecida, mas porque eram muito brancas mesmo.

Respondeu:

_No dia anterior, enviamos à transportadora de valores uma relação onde constam as agências que devem ser atendidas por esta matriz e o montante de dinheiro de cada uma. Especificamos também as agências que estarão nos enviando dinheiro. Este dinheiro que vem só é discriminado na hora do embarque pela própria agência. E isso se dá ao final do dia. Às vezes, um carro–forte chega a uma agência, entrega o dinheiro e embarca de volta outro valor, mas nem sempre é assim, porque dependemos dos horários de chegada dos furgões e do valor que temos nos caixas e nos cofres das agências. Normalmente evitamos que um valor muito alto durma nos cofres das agências.

_ Mas o guarda pode dormir no carro–forte, não é? _ o delegado pensou, com ironia, mas não falou. Em vez disso, prosseguiu:

_E quais as pessoas do banco sabem dos valores transportados em cada carro–forte?

_Nós não sabemos, delegado. Sabemos sim do valor total do dia e do que é destinado a cada agência, mas não o montante de cada carro–forte. A LINS é que determina isso. Depende do volume do dia e do número de agências. E também é a LINS que define a quantidade de furgões a serem utilizados. Normalmente, nos finais de mês, a LINS usa mais veículos por causa das folhas de pagamento de funcionários das grandes empresas. Nessas ocasiões cada carro–forte transporta um valor maior, mas tem um número menor de agências a atender. Em outros dias, acontece o contrário, ou seja, cada carro…

Novamente o impaciente delegado o interrompeu:

_Quantas pessoas tinham conhecimento da entrega de mais de oitocentos mil dólares à agência de Betim ontem?

A voz de Hélio Vieira soou séria e firme, sem titubeios, mas seus olhinhos azuis pareciam fazer troça do delegado:

_Já há dois anos e meio que é feito o transporte desse mesmo valor para Betim nos finais de mês, delegado. Só no setor de tesouraria, tenho certeza que uns dez funcionários sabem, até porque uns cobrem as férias dos outros. Também tem o pessoal da nossa agência em Betim e por fim, as nossas empresas-clientes com seus gerentes, diretores e funcionários, embora estes conheçam apenas o valor da parcela que lhes é destinada.

O delegado enfiou dois dedos sob o chapéu e coçou lentamente a cabeça, pensativo, mas não permitiu perceber o que se passava em sua mente. Na verdade, ele só pensara em duas palavrinhas: Deus meu!

Depois perguntou:

_Quem é o responsável pela escala de veículos da LINS?

Hélio Vieira respondeu de pronto:

_Haroldo Dias. Por coincidência, devido ao acontecido, ele está aqui na matriz. Você quer que o localize?

_Sim, sim, faça o favor.

A voz do delegado saíra meio espremida, deixando escapar um leve tom de desalento e decepção.

O homem magérrimo levantou-se e caminhou apressado pelo corredor, desta vez esquecido de seu defeito físico. O gingar desengonçado dava a impressão de que ele ia girar sobre si mesmo a qualquer momento ou sair derrapando no encerado do piso.

Alguns minutos se passaram antes que Hélio Vieira retornasse à sala acompanhado de um negro alto e espadaúdo. Este tinha por volta de quarenta anos e no momento em que cumprimentou o delegado, sua voz soou surpreendentemente fina comparada ao tamanho do corpo parrudo. Voz de menino saindo da boca de um negro de quase dois metros de altura. Mas era a voz que ele tinha e não se podia fazer muita coisa a respeito.

_Como vai, delegado? Estou à sua disposição.

Sentou-se ao lado do policial em uma cadeira agilmente esticada por Hélio Vieira.

O delegado Almeida olhou-o de esguelha, meio ressabiado com aquela voz esquisita a incomodar-lhe os ouvidos. Sequer o cumprimentou. Em vez disso, foi perguntando:

_Você é o responsável pela programação de entregas?

Haroldo Dias disse que sim.

O delegado repetiu a pergunta que tinha feito anteriormente ao Hélio:

_Vocês já pesquisaram o motivo de um carro-forte da LINS ter uma folga de horário tão grande que permite à guarda, antes de fazer a entrega do dinheiro, parar no meio do mato, almoçar e dormir?

Haroldo Dias pigarreou, desconfortável. Depois respondeu com sua voz esganiçada, carregada de um forte sotaque nordestino:

_Sim, pesquisamos, delegado. De ontem para hoje não pregamos olho para descobrir onde falhamos…

_E…

_Descobrimos que realmente houve uma falha na elaboração do tempo de viagem entre Belo Horizonte e Betim.

_Explique-se melhor, rapaz.

Novamente Haroldo pigarreou, desconfortável.

_Há um ano, o tempo de ida e volta neste trajeto era de duas horas e meia, incluído o tempo de entrega do malote à agência e a coleta do dinheiro que trazíamos na volta. No entanto, houve um incidente na ocasião que nos obrigou a estender esse tempo, delegado. A ponte que fica um pouco antes da Petrobrás desmoronou. O senhor deve se lembrar disso, pois foi divulgado em todas as rádios e jornais. Aquela ponte sobre a linha de trem. Então tivemos de fazer um grande desvio para atender a agência em Betim. Por isso, aumentamos o tempo de duas horas e meia para três horas e meia, ou seja, uma hora a mais.

O delegado Almeida mirou dentro dos olhos de Haroldo. Este não desviou os seus. O velho policial observou, incisivo, quase feroz:

_Mas a ponte já foi liberada há mais de dois meses, meu caro!

_Sim, sim, delegado. É justamente aí que reside a nossa falha! Por um motivo qualquer, nós da LINS não corrigimos o tempo previsto de viagem, que continuou sendo de três horas e meia. Irresponsavelmente, os guardas que fazem o trajeto aproveitaram-se disso para almoçarem com mais conforto e até tirarem uma soneca, usando a hora de sobra. Talvez até porque um assalto dessa natureza nunca aconteceu nessa região. O índice de violência em nosso estado é muito baixo, então os guardas devem ter pensado que não era nada demais se afastarem da rodovia…e que nada iria acontecer…

_Ninguém atinou com o erro, nem foi avisado pelos guardas sobre a falta de atualização do tempo programado?

_Ninguém, delegado. O detalhe passou em branco durante dois meses.

O delegado deu uma risada tão debochada que Haroldo Dias ficou lívido, cobrindo de uma profunda palidez o tom escuro de sua pele.

O policial explodiu, em voz alta:

_Que porra de empresa é essa que comete um erro tão ridículo, caralho?

O palavrão passeou nítido nos corredores e nos ouvidos das funcionárias das salas conjugadas. Algumas coraram. Naquela época, os palavrões eram raros e se falados, nunca o faziam na presença de uma mulher… ainda mais diante de várias delas juntas.

Mas o delegado não deu bola para o mal estar. Talvez nem tenha percebido. Continuou:

_Deduzo então, meu caro, que estamos sob a maior pressão do mundo para resolver um caso inédito no nosso estado por causa de uma omissão idiota dessas? Só porque um incompetente da LINS não corrigiu o período de viagem e porque uns filhos da puta preguiçosos resolveram esticar o tempo de almoço para tirar uma soneca? Ah, tenha a santa paciência!

Naquele instante, Haroldo Dias era a imagem perfeita do mais puro constrangimento. Sua pele negra estava esticada e seus olhos entreabertos fitavam o delegado com temor. Gaguejou, a voz cada vez mais fina, quase sumindo:

_Eu… eu tenho de… reconhecer, delegado, mas infelizmente é isso mesmo.

Com a mão esquerda, o delegado levantou um pouco o chapéu e com a direita tornou a coçar a cabeça, desta vez alisando o cabelo em sua extensão, sem tirar o chapéu, que balançou perigosamente, mas não caiu. Talvez fosse esse um cacoete reservado para os momentos difíceis.

Engoliu em seco, retomou o prumo e voltou a perguntar:

_E quem da LINS teve acesso ao valor transportado, ou melhor, quem sabia desse valor?

_Muita gente, delegado. Os dois conferentes de carga, o motorista, eu e certamente mais algumas pessoas do meu departamento.

_ Santo Padre, quanta gente! _ pensou o doutor Almeida, decepcionado. Botara fé que a gama de possibilidades se afunilaria no primeiro dia de investigações, mas não era o que acontecia. Definitivamente, não era mesmo.

_Quero as fichas cadastrais de todos que têm conhecimento dos valores e dos trajetos, senhores._ disse, dirigindo-se aos dois, Hélio Vieira e Haroldo Dias.

O doutor Almeida pensou por um instante. Depois prosseguiu:

_Vocês desconfiam de que forma os bandidos foram informados?

Os dois menearam as cabeças. Ainda não haviam pensado nisso.

O delegado já esperava por isso. Ainda ficou por ali cerca de duas horas, questionando tudo que entendia ser relevante, mas não progrediu muito.

Ao final, se despediu secamente dos dois gerentes e, ao atravessar a porta de saída, ainda teve de ouvir a voz calma de Hélio Vieira:

_Deus lhe acompanhe, delegado.

O doutor Almeida não disse uma palavra, mas o olhar assassino que lançou sobre o gerente do banco Capital traduzia bem o que achava daquele fervor religioso inteiramente descabido, em sua opinião.

Mesmo sem avançar no ritmo que pensara avançar, ele considerou o primeiro passo como bastante proveitoso. Quando saiu do banco em direção ao seu gabinete na delegacia, dirigindo o seu pequeno Dauphine, o doutor Almeida podia apostar a sua vida que os assaltantes do carro-forte haviam obtido acesso às informações através de alguém de dentro do Banco Capital ou da LINS. Ou dos dois. Mas quem?

Seu tempo seria investido integralmente na procura da resposta certa. Por isso, ele e sua equipe se debruçaram sobre cada ficha dos funcionários do banco Capital e da Lins, pesquisando seus passados e seus presentes, em busca de algo que pudesse expor o fio da meada.

Chamou todos os funcionários à delegacia e os interrogou, inclusive os guardas assaltados.

Ele só deixou em paz o guarda que havia sido ferido e que ainda se encontrava em coma na Santa Casa de Misericórdia.

Na hora em que despertasse, se despertasse, o doutor Almeida seria a primeira pessoa que ele veria. Ah, se seria!

Infiltrou seus informantes nas ruas, nos becos e nas vielas e disfarçou-os no submundo do crime, acreditando extrair dali algumas pistas, mesmo que discretas, sobre a autoria do assalto. Afinal, um assalto desse porte só poderia ser planejado e executado por profissionais do ramo. Disso ele não tinha a menor dúvida. E mais dia menos dia alguém ligado ao mundo do crime daria com a língua nos dentes. Era coisa grandiosa demais para ser escondida. Era dinheiro demais para desaparecer sem rastros. Era o que o delegado Almeida pensava.

A TRAMA

Os instintos afiados por anos e anos de experiência do doutor Almeida estavam corretos. A suspeita de que as informações sobre a existência de falhas de segurança vazaram de dentro do banco Capital e da LINS não era despropositada. Pelo contrário, eram a mais absoluta verdade. Mas, em fase inicial das investigações, obviamente o delegado Almeida ainda não reunira dados consistentes para essa certeza.

O velho policial não se surpreenderia se confirmasse que todo o assalto tinha sido planejado por pessoas de dentro do banco e da transportadora de valores. Em um primeiro momento, por Haroldo Dias. Depois com a parceria de Hélio Vieira. Portanto, os dois estavam enrolados até o pescoço no crime cometido, embora não tivessem participado da execução.

Haroldo Dias, o negro forte e espadaúdo, trabalhava na LINS há mais de quinze anos e o máximo que conseguira alcançar profissionalmente fora três ou quatro promoções, o que, em absoluto, não o satisfazia. Tinha de si um conceito muito melhor do que a visão de seus superiores. Na época do assalto, Haroldo exercia o cargo de gerente de distribuição há mais de quatro anos e isso era muito pouco depois de quinze longos anos de dedicação total à empresa.

Ambicioso, ele queria mais. Muito mais. Sonhava se tornar uma figura importante, se impor socialmente e vingar com sobras os preconceitos raciais _ às vezes velados, às vezes escancarados _ de que fora vítima a vida inteira. Haroldo Dias tinha consciência de que, por causa da cor da sua pele, não fora reconhecido e valorizado dentro da LINS.

Mas, mesmo assim, idéia tão ousada só tomou forma quando a ponte foi reconstruída e os carros-fortes continuaram a cumprir a previsão de três horas e meia, em vez de chegarem mais cedo uma hora, como antes do desmoronamento.

Nos dias seguintes à entrega da ponte em condições de uso, ninguém da LINS _ nem Haroldo Dias _ deu-se conta de que deveriam ser feitos ajustes na programação dos horários.

Dois dias depois, lembrou-se, de súbito, mas, ao mesmo tempo, notou que, apesar de ninguém ter alterado a programação, o carro _ que era sempre o mesmo _ continuava cumprindo três horas e meia, como se a ponte não tivesse sido reconstruída!

Quando o carro-forte chegou à garagem naquele dia, ele não disse nada. Não sabia definir com exatidão o motivo, mas a sua intuição lhe sussurrava que a omissão seria mais útil do que qualquer ação naquele momento.

Permaneceu em silêncio, mas tomou algumas providências para se pôr a par do que ocorria com o furgão.

Dissimuladamente, seguiu-o por três dias. Descobriu onde os guardas gastavam a hora excedente que tinham ganhado de presente. O pequeno restaurante rústico na clareira da mata era de propriedade da amante de um deles, chamado Tobias. Talvez fosse o único momento do dia em que o guarda podia vê-la, pois era casado e com filhos. Deve ter exercido um grande poder de argumentação para convencer os colegas a acompanhá-lo na falta e no risco, mas a verdade é que eles acabaram gostando do almoço de graça, farto e feito na hora, em lugar das marmitas frias engolidas apressadamente dentro do carro-forte. Além disso, ganhavam um tempinho para descansarem os esqueletos cansados da carga-horária excessiva da transportadora, que não pagava horas extras feitas nos diversos trajetos diários.

Haroldo Dias checou a ficha de todos os guardas e constatou que eram funcionários sem complicações anteriores.

Nessas alturas, a trama já se infiltrara em sua cabeça, tentando-o como uma serpente no Éden. Uma pergunta ecoava lá no fundo do cérebro: qual o momento que um bandido escolheria para assaltar o carro-forte, se soubesse exatamente seu trajeto e suas paradas?

Haroldo sabia que não precisava ser bandido para concluir que o instante propício para a ação seria na parada na clareira da mata. O fator surpresa era um trunfo valioso demais.

Enfim, com todas as informações privilegiadas à mão, Haroldo teria um plano bastante detalhado, confiável e perfeitamente exeqüível, se se debruçasse sobre ele. Mas lhe faltava o mais importante: não tinha quem o executasse. Estava bastante claro que qualquer um poderia ser o executor, menos ele, que, devido ao seu cargo, era essencial ter um álibi.

Ademais, existia uma dificuldade quase intransponível: Se contratasse marginais para a operação, estaria nas mãos deles daí por diante. Ademais, não tinha nenhuma garantia de que, após o assalto, eles lhe entregariam a parte que lhe cabia do dinheiro roubado. Eles sumiriam do mapa, isso sim, com oitocentos mil dólares descansando nos bolsos. Ele não poderia nem chiar e muito menos denunciá-los. Além do que, certamente seriam figurinhas carimbadas na polícia e, portanto, fáceis de prender e abrir o bico.

No decorrer dos dois dias seguintes, uma idéia _ a princípio estapafúrdia _ foi se alojando em seu cérebro, na medida em que ninguém da LINS se dava conta da falha.

A idéia _ que se tornava mais lógica quanto mais pensava nela _ era a seguinte: Se utilizasse homens desesperados, à beira da falência, mas que estivessem acima de qualquer suspeita em relação a crimes de tais proporções, talvez fosse mais seguro executar o assalto. A dificuldade óbvia residia na total inexperiência dessas pessoas.

Paradoxalmente, a inexperiência e a curiosa composição do grupo de assaltantes seria justamente o escudo que os protegeria das suspeitas da polícia. Afinal, qual policial louco pensaria numa hipótese tão absurda?

O carro-forte estava de tal modo indefeso que seria como tirar pirulito de uma criança. Qualquer um poderia executar o plano, desde que a surpresa fosse o fator mais explorado.

Com um time com essa característica, ele conseguiria preservar o sigilo, que era essencial para que todos não acabassem na cadeia. De mais a mais, garantiria o seu precioso quinhão do bolo.

Era muito importante que todos _ e não só ele _ tivessem muito a perder.

Para encontrar esses homens, que serviriam como uma luva em seu plano, Haroldo Dias poderia utilizar duas fontes valiosas, sem que uma soubesse da outra.

Uma era Hélio Vieira, que detinha o conhecimento sobre a situação financeira de cada cliente do banco e se não soubesse, poderia se informar na área de créditos.

A outra fonte era um agiota inescrupuloso, chamado Setembrino Dumas, que tinha muita gente nas mãos. Alguns lhe deviam verdadeiras fortunas. Talvez Setembrino Dumas, um descabido usurário, fosse mais útil do que Hélio Vieira, mas convinha plantar um centro de informações dentro do Banco Capital e ninguém melhor do que aquele estranho manco, que Haroldo Dias conhecia muito bem de outras paragens.

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11 comentários sobre “Livro “O Olho do Camaleão”

  1. Caro Roberto,

    Desde o primeiro texto seu que li, há uns três ou mais anos atrás lá no Terreirão do C Munaier, apreciei demais a leitura. Na verdade até me espantei com a qualidade da redação, [ se não estou enganado o personagem principal era o Zé do Bode]; antes frequentei blogs de jornalistas e achei-os sem graça, sem qualidade, para ser sincero. Fiquei mais impressionado ainda quando você inaugurou o L&N: minha leitura diária obrigatória.

    Estou esperando com ansiedade a publicação do seu livro. Este aperitivo que acabo de degustar aqui já me deixou com água na boca. Sei que a publicação de um livro não pode ser feito a toque de caixa. Já li muitos livros na minha vida, aliás uma das minhas paixões, gostaria de ter lido outros tantos mais, e fiz a conta, sei que não viverei o suficiente para ler todos os livro que já listei para serem lidos.
    Não quero ser puxa-saco, mas sei quando estou diante de um grande autor, ou pelo menos de um grande autor para mim. Assim que seu livro estiver pronto, vai passar na frente… hehe.

    Parabéns o aperitivo estava ótimo, não vejo a hora de saborear o prato principal, mas sei que vc o está preparando com todo o esmero. Agora já tenho idéia do quanto ficará bom… ”o cheiro está ótimo”.

    Abração,

    Jota

    1. Muito obrigado, meu amigo. Estarei postando alguns dos capítulos aqui para q eu possa saber se estou no caminho certo e se o tema principal do livro agrada ao leitor.
      Peço que continue me ajudando a avaliar o livro.
      Abração, Jota. Sei q o q vc escreveu é absolutamente sincero.

  2. __ Roberto meu irmão,vi no banner do L&N e resolvi clicar ,surpresa agradável demais da conta sô ! acostumado a ler seus textos no Blog , fiquei honrado em lê-lo _ existe isso [?] _como escritor .Bacana mesmo amigo . Um bom começo de história, com personagens [políticos anos 60] e sinópse da idéia da trama, que prometem. Como é o primeiro capítulo e especialmente pelo fato da história se passar nos anos 60, é aguardar os próximos capítulos e acompanhar . Grande abraço amigo .Qdo publicar , divulgue onde encontrá-lo ,este quero ter em minha estante.Num vai esquecer einnn …! Abraço irmão .

    1. Se vc gostou, Kriko, fico muito contente, meu caro. Postei o livro exatamente para medir a sua aceitação. E todas as opiniões serão consideradas com o maior respeito. Mto obrigado, amigo.

  3. Roberto,

    Cheguei até a este texto a partir de seu post no twiter. Tenho acompanhado o caso da Arena Incompetência (depois explico a razão para este nome fantasia) neste blog, com os excelentes textos do Jarbas Lacerda, e também suas resenhas e comentários sobre o maior clube de Minas e confesso que passei batido neste post.
    Sobre o capítulo do livro, já que você solicita uma avaliação, digo que o aperitivo foi muito bom e que o restante promete. O “cinismo” do parágrafro final é um achado. Como nem tudo é perfeito, julgo que poderia haver uma pequena correção na forma de apresentação, pouca coisa, apenas reduzindo um pouco o número de parágrafos anexando, quem sabe, algumas conjunções subordinativas para a concatenação dos textos. Mas é claro que isto tem muito de estilo próprio do autor e o critério de definição tem que ser seu.
    Agora, a razão de chamar o estádio de Arena Incompetência: Um estádio c/ 1/5 de lugares sem visão total do campo, sem previsão de separação de torcidas (tá certo, isto deveria ser prova de civilidade, mas estamos na banânia), sem estacionamento decente, sem acesso razoável, em pleno século 21 é a prova acabada da incompetência de nossa engenharia.

  4. Prezado amigo, agradeço demais a sua crítica construtiva. Já tentei antes conjunções subordinativas até para tentar reduzir o número de palavras para explicar uma situação. Mas não consigo, devido ao estilo q trago por natureza. Então, resolvi assumir o estilo para estar mais à vontade. Entendeu? Mas está anotado e devidamente valorizado. Agradeço demais e espero q me dê a honra de acompanhar a feitura do livro com críticas sinceras. Grato.

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