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2013, O ANO EM QUE NOS LIVRAMOS DE TODAS AS ZICAS

colunarobertolopes2Como diria o filósofo: Autoriza o árbitro Patrício Polic, Riascos parte para a bola, ele vai com o pé direito, bateu…

E tome reticências.

Parou tudo. Nem o Super-Homem faria o mundo voltar a girar imediatamente. Se a Lois Lane tivesse morrido na hora do pênalti, estaria frita.

Parecia roteiro de cinema, caro amigo atleticano: o ano começou marcado pelo 13, o que nos fez apelidar esses mágicos 365 dias de “Dois Mil e Galo”. Ora, se para atleticano que se preze, até dia 13 é de se comemorar, e a hora de 13:13 é sempre motivo de alegria, o que dizer de um ano que é o primeiro treze de um milênio novo?

Pois é: Dois Mil e Galo começou com o torcedor cheio de esperança, acreditando que até os astros estavam conspirando para que as coisas começassem a mudar PRA VALER, com títulos, sem bater na trave, como foi em 2012. Aliás, não ouvi de ninguém, mas tenho certeza de que, quando o mundo não terminou em 21/12/2012, teve atleticano virando a folhinha, mirando o 13 e pensando: agora, vai!

A quantidade de vezes em que o 13 se repetiu neste ano (além do número do ano em si) é incrível. O Galo começou sua caminhada na Libertadores num dia 13, e chegou a uma final marcada para uma data em que os dígitos somavam 13. Um novo Papa foi escolhido: “Papa Francisco”, com treze letras, como tinha que ser. Há um monte de outras pequenas coincidências – para quem é mais pragmático – ou sinais – para os esotéricos: o Galo seria – e foi – o décimo-terceiro clube brasileiro numa final de Libertadores, assim como Cuca foi o décimo-terceiro técnico brasileiro a ser campeão. O juiz que apitou o primeiro jogo da final era – adivinhem? – o décimo-terceiro árbitro argentino a apitar uma final de Libertadores. Tem mais um monte de 13 escondidos por aí, é só procurar.

VINHODOROBERTOLOPESO meu registro particular aconteceu no final de semana que ficou ensanduichado entre a quase tragédia do Paraguai e a redenção do Mineirão: estava com minha mulher e um casal de grandes amigos atleticanos em um restaurante e pedi um vinho da adega, sem nunca tê-lo experimentado e sem ter informação nenhuma sobre ele, exceto pelo conselho do sommelier. Quando chegou o vinho, a garrafa era numerada, e o número da minha garrafa era 1365. Não bastasse começar com 13, 65 também é múltiplo de 13, e 1365 é igual a 105 vezes 13. Cento e cinco anos de Galo, vezes Galo. Foi demais para mim, e eu soltei um palavrão para o sommelier que, incrédulo, diante da minha explicação matematicamente atleticana, tomou a garrafa da minha mão, olhou o número, e disse: – Caramba, não acredito! Vai, Galo! Essa é nossa!

Ele me devolveu a garrafa com o cuidado de quem carrega um bebê de 10 dias, e eu a guardei até o dia da final, com rolha e tudo. A foto está aí do lado.

Agora, ao que interessa: neste ano em que tudo é 13, e 13 é Galo, nosso roteiro escrito lá de cima – tenho dúvidas se por Roberto Drummond ou por Hitchcock, que eu suspeito que seja atleticano – estava montado para fazer uma drenagem linfática na alma calejada do torcedor do Galo, lembrando-o de como é acreditar sempre, saber, do fundo da alma, que vai dar certo.

Começamos a Libertadores contra o clube brasileiro que mais vezes venceu o torneio. Tinham tradição, nós não. Atropelamos, com um lance de gênio de R10, que deveria passar a se auto-numerar R13.

Registramos a maior goleada de um time brasileiro em terras argentinas, e consagramos de vez Bernard, que foi à seleção e não saiu mais. Saiu do Galo, mas o Galo não saiu dele, um dia volta.

Vencemos a altitude criminosa da Bolívia. Com Serginho em campo, dando o passe para o gol da vitória. Só isso já era estranho o suficiente para fazer o atleticano desconfiar de que algo estava mesmo diferente.

Nas oitavas de final, quis o destino que o São Paulo cruzasse outra vez nosso caminho, e a imprensa não se acanhou em apresentar prognósticos que tiraram o sono dos atleticanos: iríamos ficar por ali mesmo. Só que não. Duas vitórias, uma de virada e uma de lavada, e a tradição deu lugar à competência.

Fomos ao México jogar num campo de brinquedo e conseguimos um empate em 2 a 2, no último lance do jogo, depois de estarmos perdendo por 2 a 0. Ali, algo começava a mudar definitivamente: num daqueles momentos em que tudo dava errado antes de Dois Mil e Galo, a bola, ao invés de bater na trave e ir para fora, entrou. Não apareceu um zagueiro para tirar. O juiz não marcou falta ou perigo de gol. Aos 46 do segundo tempo. Será?

No Horto, achamos que era só esperar passar os 90 minutos, mas nosso roteiro estava num daqueles momentos cruciais. Que São Paulo, que nada, o Tijuana é que era o Jason e tentou ressuscitar aos 46 do segundo tempo, com um pênalti que teve o peso de décadas de má sorte. Eu não acreditei, acho que ninguém entendeu direito quando o juiz saiu correndo apontando para a marca da cal. Muita gente foi embora, como que fugindo de todo um passado de frustrações e “quases”. Só que não. A canhota salvadora do nosso goleiraço Victor foi a machadada que cortou a cabeça do Jason mexicano. E nosso roteirista, nos dois jogos contra o Tijuana, nos fez ver que nossa zica de perder nos minutos finais – jogos, classificações, títulos – estava extinta.

Semifinais e finais foram capítulos parecidíssimos, com desvantagem de dois gols na ida, vantagem de dois gols na volta,  sempre nos minutos finais, para acabar com o coração de qualquer ser humano. Teve apagão. E pênaltis, amigo! Pênaltis! Contra o NOB, nos livramos da zica dos pênaltis, em que sempre éramos desclassificados. E, porque não dizer, das semifinais, onde tantas vezes caímos no Brasileiro e das quais nunca passamos na Copa do Brasil. Outra zica histórica expurgada.

Na final, tivemos a ajuda do Sobrenatural de Almeida, que corrigiu a teimosia de Cuca, deu um cartão vermelho pro Richarlyson e colocou Junior Cesar na lateral esquerda, além de ter se unido a um exército de atleticanos já desencarnados para puxar o pé do atacante paraguaio naquele lance inesquecível. E, pra ficar perfeito, vivemos também  a redenção maior: pênaltis, no Mineirão, no mesmo gol onde, em 1978, o Galo conseguiu errar mais cobranças do que o São Paulo e perder o título do Brasileiro de 1977. Era o que faltava, não falta mais. O roteiro que decretou o fim de todas as zicas estava completo.

O mundial? um detalhe para mostrar que, mesmo sem zica, o time precisa jogar bola, e esquadrão nenhum do mundo está imune a atitudes equivocadas como foi a do Cuca, abandonando o barco antes da hora.

Ah, é mesmo, voltemos ao Riascos. E aquele dia, no Horto, depois que o Riascos partiu para a bola? Onde você estava? O que sentiu? O que fez?

Eu estava lá, olhando sem querer olhar, quase na linha da pequena área daquele gol que o Victor defendia. Lembro de, nos segundos que antecederam a cobrança, pensar naquela torcida indo embora triste e afastar o pensamento: não, hoje não. A bola marretada pela canhota do Victor veio na minha direção e eu demorei alguns décimos de segundo para entender o que tinha acontecido. Caída a ficha, pulei no pescoço do meu pai, flamenguista que me levou ao Mineirão nas primeiras vezes que vi o Galo jogar. Dei um grito que deve estar ecoando na cabeça dele até hoje. Não foi um grito de Galo, de gol, de “defendeu”, de nada disso, foi só um grito do fundo da alma, coisa meio animal. Se eu tivesse que apostar numa tradução, acho que gritei, na língua dos homens de Neanderthal: sai, Zica! Aqui é Galo, porra!

Feliz Dois Mil e Sempre, Galo. Que você nunca mais deixe de acreditar. Da minha parte, EU ACREDITO!

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