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A DESCOBERTA DO TESOURO ATLETICANO NA CONQUISTA DA LIBERTADORES

Texto escrito por Bruno Oliveira.

quandoamassafala...

O que o atleticano viveu na quarta-feira, com a conquista da Copa Libertadores da América, foi mágico. Algo que se sente poucas vezes na vida ou que muitos, mesmo ao conquistar a Libertadores, nunca terão a oportunidade de vivenciar. Uma singularidade que desarranja toda a normalidade e joga o nosso ser num abismo. Experiência tão sublime que nos abre para uma realidade mítica e nos desperta para aquilo que há fora de nós, um outro.

Se uma Madeleine produziu no narrador de Proust a doce lembrança de uma memória involuntária, algo que se apresenta sem ser chamado, mas, por isto mesmo, sempre presente, a taça da Libertadores da América, quando erguida pelo capitão Réver, evocou no atleticano uma experiência parecida. Se em Proust o que se reviveu foi a infância passada em Combray, na quarta-feira foi a rememoração e a celebração, não do título em si – importante, pois recolocou, de fato e de direito, o Atlético entre os grandes da América – mas de uma sombra que sempre acompanha o atleticano e, em razão desta qualidade, pouco notada. Não porque é desconhecida ou desvalorizada, mas, por ser muito cara ao atleticano, ela é preservada como um tesouro esquecido para que ninguém possa encontrar, ou melhor, um tesouro que só se revelaria quando a memória involuntária do atleticano fosse despertada.

Este tesouro estava tão bem guardado que ele é a chave para responder ao inquietante desconcerto do repórter do Impedimento, que veio cobrir a final da Copa Libertadores em BH, ao constatar que “jamais havia presenciado uma festa de título que se estendesse por todo o dia seguinte” http://impedimento.org/de-virote-mas-ainda-precisando-acordar/

O tesouro do atleticano, a sua sombra, não é outro senão a memória coletiva alvinegra. Sem cair em qualquer análise antropológica ou psicológica do homo atleticanus, porém, com um toque de metafísica, o que o acompanha é a lembrança de um rosto. Não qualquer rosto, mas um rosto singular, o rosto do pai, da mãe, avô, avó, tio, tia e amigos que foram fundamentais na construção do nosso amor pelo Atlético. Uma das singularidades deste rosto é o fato de já ter sido tocado pela morte, de estar onde já não há de lutar para estar.

O fanatismo e a paixão atleticana surgem deste rosto singular, um rosto que tem nome, é verdade, mas que é capaz de encontrar outros rostos e dar molde a uma memória coletiva, um todo. O rosto do pai do presidente Alexandre Kalil, quando este – após o fim do jogo, num momento catártico, característica da essência do ser atleticano – afirmou a repórteres ter sido o finado Elias Kalil que nos havia dado a Libertadores, é também o rosto da minha avó, torcedora fanática, que me presenteava, nos meus aniversários, com idas à capital para ver o Galo. Foram eles, os nossos mortos atleticanos, que nos deram não apenas o título da Libertadores, mas também romperam o silêncio para resgatar a nossa vida e nos lembrar: “estamos aqui e sempre estaremos ao lado de vocês, somos as sombras, nós acreditamos Atlético.”

A força do “Eu acredito”, mantra entoada pela Massa atleticana, que ainda ecoa no Mineirão, mesmo três dias após terminado o jogo, vem deles. Por isso, amigo repórter do Impedimento, a comemoração do despertar causado pelo título só começou, pois a celebração da nossa memória coletiva, o nosso tesouro, será para sempre.

Abraços, Bruno Oliveira.

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