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SOBRE CACHORROS E CLÁSSICOS

Eu tinha, quando criança, um dogue alemão. O representante mais ilustre da raça, para quem não ligou o nome à pessoa ou ao bicho, é o Scooby Doo. Trata-se de animal alto e até certo ponto corpulento, com uma boca gigante que os entendidos garantem desferir a mordida mais potente dentre as muitas variedades da espécie canis familiaris. Pelo tamanho, inspira medo, mas na verdade é bobão, meio desengonçado e babão. O meu scooby se chamava Brutus.

Às vezes, eu brincava com Brutus de buscar a bola. Na teoria, algo trivial na vida de um cão: eu mandava a bola, ele corria, pegava e trazia. Na teoria apenas, porque, se cachorro viesse com manual de instruções, saberíamos de antemão que o dogue alemão tem pouca ou quase nenhuma capacidade de frenagem. Por isso, quando eu jogava a bola, ela quicava uma, duas, três vezes, batia na parede e voltava. Brutus dava um, dois, três pulos e tal qual um Titanic peludo, sem conseguir parar ou desviar, atingia a parede com energia invejável! E babava, antes de voltar aos pulos atrás da bola, meio sem-graça, como que reconhecendo o vexame.

No domingo, depois do jogo com o Botafogo, já em casa, mais calmo, estava vendo o VT e, na cena do terceiro gol, uma certeza me tomou de assalto: o Fábio Ferreira, zagueiro do bota, era Brutus reencarnado pulando atrás da bola, tentando alterar-lhe a trajetória com uma patada salvadora, mas conseguindo apenas dar de cara com a trave, implacável, fria e provavelmente dolorosa.

A mesma trave que, dias antes, me fez rosnar de raiva ao impedir três gols do Galo em Goiânia, me proporcionava agora uma lembrança tão boa da minha infância.

Aliás, a cena, como um todo, me pareceu uma metáfora condensada do que tem sido o Galo, neste campeonato: o goleiro adversário olhando para trás, girando torto em câmera lenta, enquanto vê a bola cair mansa dentro do gol, o zagueiro trombando caninamente com a trave, e dois reservas do nosso time se abraçando e fazendo festa pelo gol que eles, saídos do banco, tinham recém-construído. Um gol para titular nenhum, de time nenhum, botar defeito. Entre Seedorf e Ronaldinho, ex-companheiros internacionais, famosos e agora alvinegros, devia existir um abismo de inveja naquela hora.

Quando acabou o jogo, eu pensei que aquela vitória, erguida com a determinação, a vontade, a raça e o brilho dos nossos jogadores, fechava um ciclo. Só faltava isso, me ocorreu: uma virada com requintes de crueldade, em que o time dono da situação deixa o outro empatar, quase na bacia das almas, só para minutos depois recompor o placar, como que dizendo: “aqui não, fiote, aqui é Galo!”

Passados alguns dias, pensando cada vez menos no Botafogo e mais no futuro, percebi que há ainda outras conquistas por vir, menos óbvias do que o título.

Falo, obviamente, do clássico. Não é um campeonato à parte, mas tem um gosto diferente, é uma singularidade na tabela do campeonato, verdadeiro buraco negro  concentrador de energia, positiva ou negativa, conforme se ganhe ou se perca.

Para nós, ganhar ou perder o clássico poderá representar pouco ou muito na tabela, porque tudo depende, também, dos resultados dos outros clássicos, especialmente Vasco x Flu, no Rio, e Inter x Grêmio no Sul. A rodada retrasada, aliás, em que empatamos com os falsos goianienses com um roteiro escrito por Alfred Hitchcock, deu a todos uma lição de física aplicada ao futebol, foi a inércia levada às últimas consequências na tabela do campeonato.

O clássico, entretanto, está longe de se resumir a pontos na tabela. É uma chance de coroar uma campanha que, até aqui, só merece elogios, embora alguns imbecis se esqueçam disso quando um jogador erra um passe ou perde uma bola. Que o digam Serginho, Marcos Rocha, Guilherme, monstros em campo, seja pela técnica ou pela raça, mas alvos preferenciais dessa subespécie que eu opto por chamar de Cornetas de Neanderthal, seres para os quais a evolução e o perfeito uso da massa encefálica ainda é uma possibilidade, mas não uma realidade.

Se ganharmos o clássico, teremos dado mais um passo, pequeno para o campeonato, mas grande para a campanha de recuperação de auto-estima que o Galo está prestes a concretizar de vez.

Se não ganharmos, não será o fim do mundo, mas domingo eu vou ser o melhor amigo de tudo quanto é santo, anjo da guarda e entidade, fazer tudo que puder, mandinga, superstição ou oração, para tentar ajudar à distância.

Eu vejo na atitude do time a consciência da grandeza do feito que eles estão por realizar. Neste final de semana, em especial, espero que os jogadores e o técnico saibam que, aqui de fora, tem um tsunami alvinegro apoiando e que cada bola é a bola do jogo.

O buraco, domingo, é um pouquinho mais embaixo!

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