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O DIA EM QUE MINHA MÃE SE TORNOU ATLETICANA

colunarobertolopesNa campanha do Galo de 1999, a partir das oitavas de final, eu adotei um ritual. Como morava no Rio de Janeiro, vinha todo final de semana que tinha jogo, ia ao Mineirão e pegava a estrada direto para voltar depois dos jogos. Chegava ao RJ de madrugada, sempre feliz.

Naquele ano, pra quem se lembra, os mata-matas eram em três jogos, sendo os dois últimos na casa do time que tinha feito melhor campanha. O Galo chegou à final contra o Corinthians, um jogo no Mineirão, dois em SP.

Vim para BH, obviamente. Na saída para comprar os ingressos, perguntei para minha mãe e para minha irmã se não queriam ir comigo. Não há notícia de qualquer uma delas em um estádio antes disso. Disse para a minha mãe que ela ia se apaixonar pela torcida do Galo. Ela se animou, acho que mais pela minha empolgação do que por qualquer outra coisa – mãe é mãe – e decidiu ir. Ficou toda feliz quando emprestei para ela uma das minhas camisas do Galo, para ela poder ir vestida a rigor. Minha irmã, flamenguista como meu pai, disse que ia também, mas se recusou a vestir uma camisa do Galo.

Minha mãe gostava de futebol, mas nunca tinha declarado torcida para nenhum time. Dizia que torcia para a seleção – e como torcia, ficava doidinha. Era comum ouvir ela explicando, depois de alguma vitória do Brasil: “Isso é bonito demais, gente!”

Aliás, se tinha Brasil escrito em algum lugar do uniforme, podia ser seleção de qualquer coisa, purrinha ou copo d’água, ela torcia, e muito.

A paixão da minha mãe era essa: o Brasil. O esporte era só um meio de comunicação com a pátria. Não é difícil entender porque uma mulher que era 100% a favor da liberdade e foi presa, grávida de nove meses, no auge da ditadura, gostava tanto de poder gritar Brasil sem medo.

Pois lá foi ela, vestida de preto-e-branco, mais por amor ao filho do que por amor ao Galo. Naquele dia estiveram em campo 90 mil atleticanos. Chegamos bem mais cedo, para ter certeza de pegar um bom lugar na arquibancada, e então tivemos tempo de saborear a torcida durante muito tempo antes do jogo.

O Galo fez um gol com 1 minuto de jogo. Não me esqueço da cena da Gaviões abaixando o bandeirão correndo para ver o que tinha acontecido.

O Galo deu um show e ganhou por 3×2. A torcida deu um show maior  ainda e, cantando o hino, ganhou mais uma integrante, minha mãe. Vestida em preto-e-branco, ela explicou: “Isso é bonito demais, meu filho!”, e me agradeceu muitas vezes, depois desse dia, por ter proporcionado a ela a visão tão próxima de 90 mil amores incondicionais.

Julia se foi num dia 13, no ano de 2011. Sofreu um AVC logo depois de passar a madrugada torcendo para a seleção brasileira de vôlei. Sempre brasileira. Sempre minha mãe. Atleticana desde uma vez, em 1999, até morrer.

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