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TORCEDORES TÊM QUE SER DE VERDADE, ORGANIZADOS OU NÃO

colunarobertolopesHá algum tempo tenho pensado mais sobre torcidas organizadas do que ordinariamente faço. Como nunca fui integrante de uma, e sempre me preocupei mais com o time do que com elas, esse tema nunca mexeu muito comigo. É possível que este seja mais um dos muitos sintomas dessa insensibilidade que o mundo de hoje provoca na gente. Minhas reflexões recentes, aliás, começaram de forma meio egoísta, por conta de seguidas decepções causadas por fatos envolvendo a principal torcida do Galo (durante anos, quase a única): a Galoucura.

Integrantes dessa torcida assassinaram um cruzeirense há algum tempo. Nada justifica um absurdo desses.

Depois da reabertura do Independência fui a praticamente todos os jogos no estádio, da Copa do Brasil, do Brasileiro, do mineiro e da Libertadores. Concluí que a Galoucura já não é a mesma. Em vários jogos, a torcida não-organizada apoiou e empurrou muito mais do que a organizada. Ninguém me contou, eu vi e ouvi.

Há algumas semanas, finalmente, vim a saber que a torcida confeccionou (parece que já faz mais tempo) uma bandeira com Renê Barrientos, o militar boliviano que prendeu e matou Che Guevara. A pergunta óbvia: mas por quê isso? A resposta: é porque o símbolo da organizada rival azul-calcinha é o revolucionário argentino-cubano. A Galoucura justificou, em nota oficial no site, dizendo que não tem nada contra a democracia ou a favor da ditadura, mas fez isso apenas por rivalidade.

Barrientos tomou o poder na Bolívia com um golpe apoiado pela CIA, e derrubou um governo democraticamente eleito. Insanidade, burrice, ignorância, tudo tem limite. Meu respeito pela Galoucura, que já foi grande e veio minguando, acabou de vez.

Obviamente, não é privilégio nosso. Há algumas semanas aconteceu o inacreditável episódio da morte do menino Kevin Spada causada por integrantes da organizada do Corinthians. O clube foi punido, a princípio de forma mais dura, e depois a Conmebol “aliviou”. Um menor de idade, aparentemente “laranja”, veio a público dizer que era o culpado, e, ao que tudo indica, ganhou uma bolsa de estudos da torcida, agradecida que estava.

A torcida do Coritiba quebrou o estádio quando o clube foi rebaixado, há alguns anos.

Membros da torcida organizada do Palmeiras acabam de agredir o time no aeroporto. Esse pessoal, aliás, é bom nisso, já deve ser a centésima vez que eles agridem jogador do time.

Exemplos não faltam.

Qualquer reflexão sobre estas organizações e sobre as pessoas que as integram passam por uma pergunta: O QUÊ eles são? São torcedores, ou outra coisa? O quê?

Então, quem é torcedor e quem não é? Qualquer um que vai ao campo é torcedor? Para mim, não.

É torcedor, penso eu, quem vai ao campo e leva seu filho, sua filha, seu pai, sua mãe, para que estes sejam testemunhas de um ato de devoção, de amor. É quem se junta com os amigos para fazer crescer o apoio ao time. É quem vai para o campo, sozinho que seja, cantar o hino e gritar o nome do clube, e até xingar o juiz, por quê não? Não é quem sai de casa para brigar ou cantar que “vai dar porrada” e fazer e acontecer.

Torcedor, na minha opinião, é quem vai ao campo só porque gosta do time, porque quer vê-lo ganhar. É quem dá seu amor, seu tempo, seu dinheiro, sem pedir, esperar ou receber nada em troca. É quem gasta o salário para comprar ingresso, refrigerante, cerveja, passagem, tropeiro e o que mais houver, e dá seu tempo e sua voz ao clube que ama para estar ali, no estádio, sem receber NENHUMA vantagem do clube por isso.

Se houver qualquer contrapartida do clube, a relação, para mim, já não tem o mesmo valor. Já não é torcedor, é outra coisa e, sinceramente, saber que outra coisa é essa importa mais para a polícia do que para a torcida de verdade.

Ninguém sabe direito o que as organizadas ganham, mas é certo que ganham. Em alguns casos, ingressos de graça, às vezes ingressos mais baratos, que repassam com lucro, igualzinho (!) aos cambistas, outras vezes o transporte. Procure na internet e você vai ver. Em governança corporativa, dá-se a essa situação o nome de “conflito de agência”, onde quem deveria defender os interesses de quem o colocou em determinada posição acaba defendendo interesses próprios e conflitantes e, ainda que não deliberadamente, termina prejudicando aquele que deveria ser beneficiado.

A torcida deveria se organizar, sim, mas a torcida de verdade, aquela que gosta do clube, não do bolso do clube. Aquela que não tem conflito de interesses. No caso do Galo, movimentos organizados recentes, como os Embaixadores do Galo, a Fúria Alvinegra, o Movimento 105 Minutos, são exemplos de torcedores reais que se organizaram para torcer. Isso é torcida organizada, como o próprio nome diz.

A gota d’água, aliás, para eu escrever este texto, foi uma sequência de tuítes dos Embaixadores do Galo de dois dias atrás, onde eles disseram: “Agradecemos o carinho, os elogios que nós, Embaixadores do galo, estamos recebendo. Mas é bom enfatizar que fazemos parte da MASSA… e é a Massa q faz com que tudo isso seja um show! Somos uma das atraçoes. Agradecemos o apoio de todas as torcidas que nos acolheram de braços abertos e entenderam a nossa causa… Nao estamos concorrendo com ninguem. É TUDO EM PROL DO GALO MAIS LINDO DO MUNDO… Só uma obs: CAIU NO HORTO ,TA MORTO!!!!!”

Gente que não é torcedor DE VERDADE, que tem interesses contrapostos aos do clube, não pode formar uma “torcida organizada”. Pode, no máximo, formar uma organização qualquer, mas para se aproveitar, não para “torcer”, no sentido puro – e verdadeiro – da palavra.

Se eu pudesse falar a todos os atleticanos, que eu acredito – e os números provam – serem muito acima da média como torcedores, pediria para irem a campo, para cantarem o hino, gritarem o nome do time, apoiarem o tempo todo. Pediria para nunca vaiar ou xingar jogador, pelo menos não antes de acabar o jogo. Pediria, enfim, para nunca cantarem gritos de qualquer organização que, não estando ali incondicionalmente, está abaixo deles, torcedores verdadeiros, na relação com o time.

Cabe a nós, torcedores, apenas isso: torcer pelo Galo. Não nos aproveitarmos dele.

Cabe ao Galo não se deixar usar.

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